Quando o relógio parar, ela vai com ele.

Ele tem 93 anos.
Ela tem 90 anos.

Quando vim morar para aqui,
Ele disse que eu tinha pinta de bom rapaz,
Ela disse que isso não sabia, mas gostava do meu sorriso.

Ele disse-me que saía todos os dias de casa para não morrer em frente à televisão.
Ela disse-me que ia com ele porque ainda gostava de andar de autocarro.

Ele foi um dos primeiros a ter carro aqui na rua.
Ela preferia a vista do Tejo quando não tinha pontes.
Eu fico a pensar que a História não vive só nos livros.

Ele não quis aprender informática aos 70 anos. Disse que precisava da cabeça para coisas mais úteis.
Ela nunca foi dessas coisas, sempre preferiu uma boa conversa.

Ele sempre foi o dono da casa, o homem à moda antiga.
Ela sempre foi a senhora da casa, a dama à moda antiga.

Ele há um ano caiu e foi parar ao hospital. Nunca mais de lá saiu.
Ela foi atrás dele. Diz que sai quando ele sair.

Não há ele sem ela, nem ela sem ele. Só falta o relógio decidir.
Eu preferia que fosse um sonho para o qual acordassem para sempre.
Eles ainda são do tempo dos finais felizes à moda antiga.

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