Do princípio das prioridades ao fim da europa

  
Tal como toda a gente, muda-se o ano e eu alinho um conjunto de prioridades a abordar no ano seguinte. Atenção, não se tratam de resoluções, deixo termos dessa grandeza para a ONU e para quem gosta de emborcar passas com postura inspiracional.

A ideia destas prioridades é poder chegar para aí a Agosto e ter a noção de como organizar as minhas frustrações, ao estilo ‘Ah disseste que querias que conseguissem ir a Veneza de férias e nem a Aveiro foram’, ‘Disseste que ias correr a tua primeira ultra maratona e estás com dificuldade em correr 40 kms acumulados numa semana’ ou até ‘Confirmaste que ias escrever A, B, C, mas continuas pelo X, de cariz incógnito’.

No entanto, um dos primeiros equilíbrios que se revela complicado é ser pai de um cidadão que caminha para os seus oito meses e, sendo ele um dos accionistas principais do nosso tempo livro, tentar negociar com ele a disponibilidade para os restantes planos. A verdade é que, embora seja um dos líderes mundiais na produção de muco e entupimento ocasional de vias respiratórias, o mini cidadão é também uma jóia de moço e a mãe não lhe fica atrás, provando quase sempre que o seu único erro poderá ter sido ir na cantiga do bandido de uma certa pessoa que não irei agora mencionar para não me incriminar.

O problema tecnicamente é meu, mas não lhe chamaria bem um problema – acho que também se lhe pode chamar um ‘é a vida’ desabafado através de um encolher de ombros e a abnegação de achar que lhe podemos dar a volta.

Num desses momentos, no passado domingo fui fazer a prova do Fim da Europa – 17kms entre Sintra e o Cabo da Roca, em que se sobe um bocado antes de descer um bocadão – longe de ser um épico (isso passou-se no dia anterior, no Trilho dos Abutres, onde gente a sério corria entre 25kms e 50kms pelo meio de lama e paisagens fantásticas na Serra da Lousã).

  
O meu único problema com esta prova foi que só a tinha feito há 2 anos em estado miseravelmente doente. Arrastei-me a subir, lamentei-me a descer e, não fosse eu uma pessoa quase lúcida e a única decisão honrosa teria sido não travar no Cabo da Roca e seguir directo para além do fim da Europa. A prioridade deste ano em relação a inscrever-me na prova era acabar sem desculpas. Esquece o sono, o bebé, o alinhamento planetário, o stress no emprego, a falta de treino e o cu pesado. Vai lá e faz aquilo.

E assim foi – acabei com menos 12 minutos que há 2 anos, a sentir-me tranquilo nas subidas (mas de bigode suado), controlado nas descidas e a acabar nos 20% de topo (ok, é 400 e tal em 2500, mas a matemática é assim). Voltei a casa no domingo com a sensação de dever cumprido, tirando na escolha da merenda de chocolate em detrimento da merenda mista – deve ter sido quebra de açúcares.

Depois no resto de domingo e início de semana, mini cidadão teve uma crise de muco e respiração estilo estivador cavernoso. Foi altura de me deixar de brincadeiras, preencher a quota de turnos familiares e ir melhorar os tempos de aspiração nasal, assalto ao ventilan e trilho nocturno quarto dos pais – quarto dele.

Chegas a terça feira e a tua perspectiva de corredor pós-moderno de domingo, transforma-se em ‘meio corredor da madrugada-meio rissol’ que se aproveita do ânimo da malta amiga com quem vai para Monsanto às seis da manhã e que, enquanto trota pelos trilhos de frontal na cabeça, se interroga ‘tens a noção que para uma boa parte das pessoas a tua resolução prioridade máxima devia ser a recuperação da tua sanidade mental, certo?’

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