Têm 20 cêntimos que me emprestem para uma posta de peixe?

Frequento regularmente o mercado de Alvalade. Questões de preços à parte, valorizo a experiência de ‘ir ao mercado’. Tem-se outro contacto com quem vende e percebe da coisa, aprendem-se coisas que não vêm em cartões de desconto, talões e promoções (que também consumo nos sítios próprios) e, enquanto me for viável, é algo que me dá gozo para além do lado funcional de não deixar o meu frigorífico morrer de tédio.

Obviamente, sendo também mitra, desde que tenho um puto utilizo-o para tentar sacar vantagens junto dos feirantes, dizendo que vários artigos são para ‘a sopinha do bebé’, a ‘papa do bebé’, ‘o lanchinho do bebé’ e por aí em diante – até agora só desconfiaram perante pedidos de camarão, presunto e alguns artigos do género. Aliás, uma das grandes expectativas de o ver a crescer é poder levá-lo ao mercado e vê-lo de mãozinha estendida a fazer olhinhos a pães, frutos tropicais e outras coisas que nos possam dar jeito na altura. Não o obrigando a tocar acordeão ou alinhavar bolas de futebol, creio ser uma maneira light de financiar o seu futuro.

Mas, já que falo de mitras, é também verdade que um mercado de alguma dimensão como é o caso deste está exposto à frequência de vários tipos de artistas do ramo – na versão soft temos hordas de escoteiros pequeninos fofinhos, controlados à distância pelos mais velhos da tribo, vendendo calendários, facas de mato, bolachinhas e tudo o que for preciso para saciar o seu vício de experiências outdoor e campismo hardcore. Em registo médio temos os gangs de romenos a vender Borda D’Água, pensos, calendários, postais dos Cárpatos e até lâmpadas de longa duração. Às vezes penso que já rejeitei num só dia avós, filhos, tios, primos e netos que começam todas as frases com ‘Sinhorrrr…’.
Finalmente, a categoria top é as dos inovadores, os empreendedores do pedinchismo, os tipos que não pedem porque sim, mas sim ‘porque não?’. São os que têm argumentos diferenciadores, propostas out of the box e nos fazem pensar duas vezes, divididos entre o ‘não’ natural e o financiamento de novos caminhos no ramo.

Entre estes, o melhor que já tenho visto é o artista de ar vago que se aproxima de nós com o olhar fixo no dragão de olhos verdes e bafo fumarento que deve estar 20 metros atrás de nós, junto ao talho de frangos. Em tom confidente e próximo começa sempre com um ‘Amigo…’ e, perante tal empatia ajudada pela quase singularidade de dentes da frente não há como não ouvir o resto do argumento.

Normalmente, o resto do argumento é apenas este: ‘…não tem 20 cêntimos que me empreste para comprar uma posta de peixe?’

Por um lado respeito alguém que prefere peixe a carne, a salgados, a bolos, a copos de leite e a todos os fritos do mercado. É saudável, tal como a menção a um empréstimos, em vez de uma doação a fundo perdido – come peixe e paga as suas dívidas – está visto que estou perante uma pessoa de bem, apesar da saúde não ser aquela que a dieta poderia indicar.
Depois, fica a curiosidade do montante – 20 cêntimos…uma posta de peixe – aqui fico baralhado, pois ou ele tem contactos junto de uma banca de micro filetes de pescada ou vai ter que acumular vários empréstimos e isso exige um plano de investimento. Não digo que o homem deva ir ao Shark Tank, mas o Kickstarter não seria uma má ideia para garantir a verba necessária.

E é enquanto penso nisto tudo que ele entende o meu silêncio como uma negativa e segue para o próximo pedido de empréstimo. Talvez um dia tenha fundos para comprar um atum inteiro mas, pelo que vejo, continua a pescar muito pouca bondade alheia.

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