Carta aberta ao meu estômago maratonista

(título enganador, só porque ninguém tem pachorra para ler rescaldos sobre maratonas corridas no pulmão da cidade).

Estômago amigo,

Já nos conhecemos há alguns anos e muito já se passou entre nós. Bem, às vezes primeiro as coisas passaram por parte de mim, depois é que passaram para ti e a seguir…bem já vês onde é que isto vai dar, por isso deixemo-nos de preciosismos.

A verdade é que sinto que te tenho tratado relativamente bem, dando-te o conforto e a gulodice que te agradam ao longo dos anos, sem perder o controlo e a disciplina que por vezes precisas e nem sempre queres reconhecer. Reconheço-te a capacidade de adaptação e a vontade de experimentar coisas novas, assim como a de perdoar alguns excessos e algum álcool que, em determinadas alturas, possam ter perturbado a nossa relação. E já se sabe, em viagem tens sido um bravo, mesmo que nem sempre tenhas conseguido lidar com o lado exótico da nossa relação.
Mas falemos da nossa, minha e tua, relação com a corrida. Sempre te disse que não ia ser fácil, mas que juntos íamos conseguir fazer maratonas. Começámos tranquilamente pelas meias e depois, em Portugal e lá fora, fomos à luta – eu a dar à perna e tu a tentar aguentar o forte. Percebi logo que eras sensível, mas com boa recuperação, o problema foi se calhar quando comecei a exigir mais de ti sem te dar a formação necessária.
Fosse com géis, barras, hidratação isotónica ou, pura e simplesmente, água a verdade é que algures entre os 30 e os 40kms de corrida tu protestas. E o teu protesto dá-me náuseas e trata-se de uma afirmação literal, por isso deixa-te de dramas e roncos.

Na apresentação aos trails, expliquei-te que ia ser diferente, que o ritmo é outro, mais pausado e que as diferentes subidas e descidas nos dariam mais equilíbrio, por mais paradoxal que possa parecer. E quando te falei nos abastecimentos feitos de bolachas, frutas e comida a sério, tenho a certeza que te brilharam os olhos. Ou, à falta deles, qualquer coisa tua que possas fazer brilhar de forma expressiva.
Da minha parte, garantia-te que fisicamente íamos estar à altura do desafio e levei-te no passado sábado à Eco Marathon para te provar isso. Uma zona que conhecemos, nada de calor em excesso, percurso divertido e livre de pressões. E a coisa começou tão bem, com um trote simpático na subida da prisão a lembrar madrugadas chuvosas enquanto outros já queriam ficar por ali em preventiva. Descidas da ciclovia em ritmo pausado, o Barcal que fica tão soft sem rampas no Mamede e a ver gente derreada na paralela da A5, enquanto o meu ânimo era pensar em rampas no Cozido enquanto passava ao lado dele e lhe acenava.
Desceu-se o canil, subiu-se a Tapada, tu estavas contente com o que eu te ia dando e eu satisfeito com metade da prova já feita. Algures no mundo começava o circo do Portugal-Áustria e nós estávamos melhor do que os 11 marrecos.

Por volta dos 25kms, depois de passearmos em alcatrão e passarmos pelo McDonalds da BP do Restelo (por essa altura, não sei se era um programa bom para os dois, mas podias ter dito alguma coisa), chegámos ao loop nas traseiras do S.Francisco Xavier e tu aguentavas-te bem, sem grandes queixas – hidratação, electrólitos à discrição, gel e barras biológicas que já conhecias bem, ias recebendo tudo com um sorriso nos lábios. Ou seja lá o que que usas para sorrir.

Foi no abastecimento dos 30kms que deste um primeiro aviso – amigo, água qb e não sei se é boa ideia carregar com mais gel. E lá fomos nós, rumo a Monsanto, com a noite a cair e o frontal a sair da mochila. Gestão de esforço, estávamos mais do que dentro do ritmo previsto e podíamos encarar a coisa com calma. Cortámos pela mata, passámos por debaixo da A5 e nessa pequena subida de asfalto eu devo-te ter começado a meter nojo, porque começaste-me a dar náuseas. E assim chegámos a 10kms de relação amor-ódio, juntos e separados ao mesmo tempo.
Se estivesse podre no total, tinha-me juntado a ti no nosso lamento, mas as pernas estavam frescas e só o facto de te estares a fechar e a revoltar à bruta é que me impediu de manter um ritmo decente, fomos andando e correndo conforme as tuas marés. Mandaste-me novidades da boca para fora aos 33kms e eu agradeci, pois senti-me bem melhor a seguir e usei os 3kms seguintes para te dizer que quanto mais depressa lá chegássemos, mais rapidamente te iria dar a Coca-Cola de que tanto gostas no final de provas assim. Não estavas para aí virado, dos 36 aos 39kms, nova birra. Algumas pessoas viram-nos novamente a fazer figuras tristes a discutir numa moita perto do fim da ciclovia da radial. Ficaram preocupadas, mas conseguia sorrir e dizer-lhes que era só garganta. Encontrar um amigo para fazer os últimos 3kms juntos foi bom, permitiu-me não pensar em ti e nos teus amuos, eu bom para dar à perna e ele à rasca do joelho. Cada um com as suas relações problemáticas.

Chegámos à meta e tu ainda amuado, quase ofendido quando te disse que nos custaste 20 a 30 minutos no tempo final, mas que não pensasses que te ias ficar a rir. Descansámos ali um bocado sentados, a contemplar a meta e a pensar no que era ou não bom para nós. Quis-te dar a tal Coca-Cola para fazermos as pazes e pensarmos no nosso futuro. Só havia cerveja na meta e eu deixei o dinheiro em casa, tal como tu deixaste o teu sentido de dever. Azar, calha a todos.

Levei-te a pé, só para veres o exemplo das duas pernas que te apoiam mesmo depois de 42kms e depois de metro, para ver se não chegavas com essa cara a casa. Lá chegado, já estavas contente, querias festa e eu dei-ta, afinal de contas havemos de estar sempre juntos para o que der e vier. Por isso, meu querido estômago, mesmo que o sofrimento maior tenha sido a ideia de que com a tua ajuda o resultado podia ter sido outro, a verdade é que no dia a seguir a vontade (e a capacidade) de sair para uma corridinha já lá estavam.

Portanto, fica já a saber que não vou desistir de ti. Vamos ler e experimentar soluções que te ajudem a ajudar-me, vamos buscar conselhos e avaliar situações. Se eu não desistir, tu não desistes e havemos de chegar a distâncias mais longas em condições apresentáveis. Afinal de contas, fazes parte de mim e, com este feitio já sabes, é preciso ter estômago para aguentar o resto.

O que é o mar?

O mar é tudo o que nos afoga.
Às vezes é o tempo. Noutras, a falta dele.
Emoções, sensações, o vazio feito um tudo ou nada de tudo um pouco.
O maior desafio do mundo ou o sorriso mais pequeno de um gigante que mal nos dá pelo joelho.
Aquilo que devíamos fazer, o que já devíamos ter feito e ondas monstruosas feitas de deveres e haveres.
Deitado na jangada do quotidiano olho para o céu e, por momentos, o mar deixa de existir.
Olho para cima e penso, ‘Vistas daqui, as nuvens parecem ondas e o céu parece o mar’.
E, quando menos esperamos, o céu é tudo o que nos afoga.