A história de ir viver para o campo…

É uma cena aspiracional para muita gente, o conceito lírico-romântico de ‘largar a vida na azáfama da cidade’ e ir viver uma existência pacífico-bucólico-tranquila num meio mais rural.

Mas, do meu ponto de vista, é um exercício que funciona muito melhor na teoria do que na prática. Pelo menos para boa parte das pessoas que na realidade não consegue viver sem um conjunto de coisas, pormenores e dinâmicas que só no sujo asfalto da selva de betão estão disponíveis (-2 pontos na caderneta por metáforas brutalístico-urbano-grosseiras). E atenção, conheço exemplos que tornam este parágrafo uma anedota e dentro da minha faixa etária (>30 e <40 anos), mas são pessoas com um mindset muito forte e específico, as quais respeito imenso por fazerem a coisa parecer fácil. Mas também é gente que não se retirou para uma vida eremita, continuam a viajar e a manter vida social, mas a sua base é que mudou radicalmente.

Não é para mim, confesso. Vivo muito bem no campo, na praia, na pequena localidade composta por uma rua mas só com a ideia de um prazo, do conceito do retiro temporário. Aí a coisa funciona na perfeição e nem ligo televisão, ando de cabelo revolto ao vento e barba de Urtigão. Só o facto de ter a meu cargo uma criança que ainda só anda na vertente ‘bêbado às quatro da manhã’ me impede de desligar o radar em pleno, pois é certo e sabido que putos com um ano e pouco funcionam melhor que ginásios para combater o sedentarismo em tempo de férias e escapadinhas.

Contudo, ao ver-me ‘estacionado’ no campo numa hipotética variante duradoura, vêm logo suspiros e a falta de coisas, mesmo que as mesmas possam parecer intangíveis. Sinto uma espécie dormência por ficar demasiado tempo parado num meio demasiado tranquilo. Não sei explicar bem, mas sei que é uma espécie do chamamento da cidade (na proporção inversa surgem-nos aquelas vontades de escapar do quotidiano para meios diferentes onde a paz impera).

Sei também de gente que tenta um passo intermédio, sair por exemplo de Lisboa para vilas/localidades relativamente próximas, em que muito possivelmente se ganha em qualidade de vida, sem perder em acesso às coisas das grandes cidades. Acredito que se possa chegar a um compromisso de felicidade que resulta em pleno, mas também ainda não é para mim. Deixem-me ficar um pouquinho mais ancião e logo falamos.

Portanto, até ver, escapologia só em versão intermitento, mas recomendo a todos os amigos que se evadam e fujam para localidades pitorescas. Terei muito gosto em fazer do seu novo domicílio campestre um óptimo local de visita em férias.

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2 pensamentos sobre “A história de ir viver para o campo…

  1. Desconfio que esse passo intermédio é mesmo o pior dos dois mundos: estás longe demais das vantagens da cidade e não estás afastado o suficiente das desvantagens da terreola.
    Prefiro o nosso bairro e as montanhas ao fim-de-semana 🙂

    • Uma vez mais, acho que são as personalidades dos indivíduos migrantes em causa que ditam o que valorizam – obviamente se fazes vida profissional na cidade e moras no ‘cantinho aprazível’ o vai-e-volta diário constitui uma espécie de morte lenta que nunca me assentaria bem. Mas, livre de amarras profissionais, já é um jogo de personalidade e aí caio em falso, porque há quem me acuse de não a ter adequada a essa vida semi-campestre 😉

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