Nomearia – A ciência de transformar nomes em porcaria

Sabes que estás a ficar velho quando certas ‘novidades’ te irritam pela simples falta de consistência e, segundo o teu critério, falta da originalidade e criatividade (ironicamente, coisas que o empreendedorismo que por aí anda supostamente cultiva às carradas).

Mais do que vir aqui criticar a abertura do negócio X ou da oportunidade Y, se o gourmet ainda está in ou se o vintage é claramente top face ao kitsch pós-moderno, centro-me num ponto específico que tanto me diz respeito – o nome das coisas, naming para aqueles que só conseguem ter conversas inteligentes utilizando termos estrangeiros comme il faut.

Cresci pelo meio de leitarias, pastelarias, drogarias, lavandarias e uma ou duas tias. O nome delas derivava, não raramente, do nome do proprietário, do nome da mulher do proprietário, dos filhos do proprietário, seguia critérios de localização (central, das avenidas, do Monte, do bairro, etc) ou de inspiração poético popular do momento. Obviamente há excepções, mas por aqui cobríamos 90% dos nomes de pequenos negócios.

Ao longo dos anos, com o envolvimento de empresas de design e novos tipos de pequenos negócios, surgiram mudanças, alguma criatividade, mas o momento épico para o pequeno negócio, em particular na restauração, foi quando surgiu a onda de ‘K’ em nomes – saudações para todos os Kafés, Kome Aki, Kome Ali e Kátesperos da vida. Foi do karaças.

Azedumiaria

Muito erros e algumas coisas boas mais tarde, entrámos na fase pseudo-gourmet-típica-especialidade-rústico-saborosa. Isto significa que se juntaram aos potenciais pequenos empresários da restauração, os pseudo-criativos do nome chico esperto com uma simples e ligeiramente burgessa ideia dominante: e se convertêssemos a categoria e/ou produto principal que vamos comercializar no nome da coisa juntando-lhe um pormenor que lhe vai dar um toque deliciosamente artesanal banal. Basta acabar tudo em ‘ia’.

Tal como em qualquer boa epidemia zombie (esqueçam a crítica ao tipo de negócio e sua validade/qualidade, hoje só estamos a bater em nomes), começámos por ver voltar à vida uma horda revival de Leitarias, Padarias ou, por exemplo, Barbearias. Depois a praga alastrou-se, com os batalhões de Hamburgarias, Peixarias, Petiscarias e mais umas quantas manias. Quando começo a ler em montras e na net Manteigarias, Coquetelarias, Logotiparias ou Bitoquerias sinto que já passámos do ponto de não retorno. É a Infernaria na Terra.

Vêm aí as Funeráriarias, as Oficinarias e, quando o Estado se aperceber da mina, cedo nos veremos numa Reparticionaria, bebendo um gin ao som de música fado-lounge, enquanto aguardamos junto à Senharia para ver quando será a nossa vez de comer umas conservas vintage e debater as dívidas ao Fisco.

Não tendo que ser um trocadilho que tanto aprecio, ainda assim prefiro mil vezes um nome idiota do que uma convenção bacoca a armar ao moderninho, mas sem o sal e os tomates necessários para fazer a diferença. Apetece-me chamar-lhes nomes, mas não vou ser eu a fazer o trabalho que eles não quiseram ter. Maisdomesmarias, proliferem para aí, que cá estarei para continuar a desdenhar sem querer comprar.

É que melhor que isto tudo só mesmo envolver nomes em bolo do caco.

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Um pensamento sobre “Nomearia – A ciência de transformar nomes em porcaria

  1. Há uma ía, que não vai ou se vê em Lisboa e se vê no Porto: “Confeitaria”!

    Esta é uma ía que ainda não está na moda e está a desaparecer…
    Abraço

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