Relativizando o Inferno de Dante

Sete círculos tresandam a burocracia, a condições e distinções, correspondências, promoções e avaliações, regras em regulamentos cheios de letras miúdas e cláusulas escondidas.

Muito mais assustador é o Inferno em que só dás por isso depois de lá estar dentro, sem saber muito bem como entraste ou sequer se é possível entrar e sair, nem se tais conceitos fazem sentido. Inferno é o que te surpreende por não ter regras nem condições, feito à medida para assentar que nem uma luva ao desespero que te pretende proporcionar.

Nem todo o Inferno é feito de fogo, mas resta a esperança de que todos eles tenham o seu bombeiro voluntário.

 

A insustentável alegria do comentador olímpico de modalidades recônditas

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De 4 em 4 anos há emoção e entusiasmo, há a maior das alegrias e a mais profunda das tristezas, há o ponto alto de muitas carreiras e os falhanços que marcam para sempre. De 4 em 4 anos, dezenas de modalidades saem da toca e enchem-nos a sala e a televisão de momentos épicos que nem sempre compreendemos mas achamos por bem aplaudir. De 4 em anos há Jogos Olímpicos.

E, se tudo isto é assim, não é menos verdade que de 4 em 4 anos há também comentadores de jogos olímpicos que saem da toca e nos trazem as verdades das modalidades que seguem atentamente e que a nós no escapam na totalidade.

Retiro da equação modalidades de multidões como o futebol, porque pode ser engraçado comentar plantéis hondurenhos, mas não deixa de ser futebol. Deixo também de parte modalidades colectivas mais triviais, muitas vezes maltratadas pelos comentadores nacionais de ocasião, pois a prática é vulgar só a exposição é que aumenta e não é raro ver transmissões transformadas num quintal de julgamento, opinião e bitaites de trazer por casa. Quando o nível do comentário é alto, não me importo deste registo, quando são apenas ‘dois gajos a dizer vulgaridades’ sem mais valia de conhecimento ou entretenimento para o espectador, dispenso – para isso chego eu em casa.
Não contabilizo também modalidades comuns tipo ténis, o atletismo no geral e até a natação – é certo que não vemos disto todos os dias, mas as regras e esquema das coisas são evidentes – além do mais, são modalidades cujos comentadores são regulares em transmissões televisivas, traço geral, não comprometem (se gostamos ou não deles, é um critério à parte do valor que trazem à transmissão).

Para mim, a diversão é ver o estado febril do senhor do judo, enquanto tenta disfarçar o entusiasmo pelo craque japonês, o patriotismo pelo português de nome romeno ou a reverência pela qualidade técnica do uzbeque, enquanto nos explica o que são yukos e ippons, ou a razão porque com três cartões amarelos nenhum daqueles tipos que tenta despir o robe ao outro vai para a rua. O homem está a vibrar, mas tenta a todos os momentos enquadrar quem não perceba tanto da modalidade e ir relatando o que se passa para além do óbvio.
Passo pela canoagem e o comentador transmite o know how de quem já passou muito tempo a remar no meio e conhece de perto os protagonistas. Isso pode ser só fachada, mas por momentos sinto que o canadiano que vai por ali fora já lhe falou das paisagens do Quebec, enquanto eram trucidados pelos rápidos de um qualquer centro de estágio.

Estes são apenas dois exemplos de vários que existem – pessoas que durante um mês transmitem o seu entusiasmo por uma modalidade que 90% das pessoas não acompanha normalmente e, no final destes Jogos Olímpicos, vai deixar de acompanhar até ao início dos próximos Jogos. Nem todos são comunicadores exímios mas, os que têm uma real devoção pela sua modalidade, passam pelo menos a energia e o querer que mais gente veja o encanto daquilo que se está a passar. É certo que nunca serei um entendido em ginástica, mas aquele triplo mortal com saída à rectaguarda merece o meu respeito (apesar do secreto gosto por tombos em aparelhos, o que se há de fazer, sou apenas um humano cruel). Quero ver gajos a cair para a água de alturas insanas, fazer o meu próprio julgamento de que aquilo foi um mergulho épico, apenas para ver o comentador a assegurar-me veementemente que foi um mergulho fraco, que as pernas abriram mais 10% que o desejável e que a espuma ao entrar na água foi de uma quantidade inadmissível. Faço-lhe um manguito, mas fico para ver o próximo e apostar que vou acertar na qualidade ou falta dela antes de ouvir o seu comentário. A experiência torna-se curiosa e mais envolvente e faz tudo parte do pacote, até malta com bandeiras que desconhecemos a chorarem baba e ranho enquanto estão no pódio agarradinhos a um ramo de flores e uma medalha.

Nada me chateia mais, ao ligar a televisão durante os Jogos, do que ver uma transmissão de uma modalidade recôndita em que o comentador parece relatar um funeral, com laivos de arrogância de agente funerário entediado. Quero lá saber se o tiro com arco é um desporto de precisão ou se o halterofilismo são 20 segundos de intensidade e 10 minutos de gajos com fatos de treino dos anos 80 a gritar em background. Se foste escolhido faz-me apaixonar por algo que eu não perceba e não desistas daquilo que te faz vibrar. Caso contrário és só mais um mono com um microfone à frente a debitar canções técnicas de embalar. E, se isso é o melhor que podes fazer de 4 em 4 anos, então tu não és verdadeiramente um comentador olímpico.

Despedi-me do tempo

No dia em que passei a usar relógio, deixei de contar o tempo. A responsabilidade deixou de ser minha e se chego adiantado, a culpa é do relógio, se me atraso, idem. Às vezes perguntam-me as horas e eu aponto para o relógio, ‘Não sei, veja lá aqui’.

Pode parecer chato, maluco até, mas ao deixar de ter tempo para tudo, passei a ter tempo para tudo. O meu único medo é se o relógio parar. Como irei dar por isso? Para onde irá o tempo, o meu tempo, que lhe confiei?
Gostava de chegar a alguma conclusão sobre isto, mas agora não tenho tempo. Tenho outras coisas, mas não sei o que lhes chame. Talvez com o tempo chegue a alguma conclusão, desde que não seja sobre o tempo em si.