Não há vela sem senão

Lembro-me de, na primeira vez que fui ao Brasil, ter sido frequentemente tomado por argentino. Não se tratavam dos meus dotes futebolísticos, mas sim do facto de que o português falado, de forma rápida e informal, se assemelhar bastante ao castelhano aos ouvidos dos locais.

Portanto, resolvi abrandar quando falava e tentar manter a linguagem simples e directa, sem parecer o cliché do Manuel da mercearia. Traço geral resultou, mas não me safei de uns quantos momentos épicos, alguns deles ficaram gravados na pedra dos meus bitaites favoritos.

O meu favorito nasceu de uma conversa de pequeno almoço de hotel em que um simpático velejador brasileiro meteu conversa comigo. Disse-me que adorava Portugal, que competia muitas vezes na Europa e achava que tinha muita sorte em fazer aquilo que fazia.

No entanto apesar de estar sempre no mar, que considerava a sua segunda casa, tinha muitas vezes saudades do Brasil.

Foi então que decidi avançar com alguma sabedoria popular ‘Pois, é como dizem lá em Portugal, não há bela sem senão…’

Olhar pensativo do velejador, fixado num horizonte lá muito ao longe. ‘É isso mesmo, não há VELA sem senão. Povo sábio o português, porventura essa frase vem do tempo dos Descobrimentos, não?’

Não sabendo o que dizer, disse que sim e ficámos os dois a olhar para os novos horizontes da sabedoria popular.

A garagem Auto-Estima

Não recebia carros,
recebia pessoas.
Não fazia inspecções,
avançava introspecções.
Não trocava motores,
remendava corações.
Não trocava pneus,
explicava que nem tudo corria sobre rodas.
Não mudava o óleo,
a fuga nem sempre é uma opção.
Não afinava travões,
por vezes há que deixar ir, para o bem e para o mal.
Não retocava pinturas,
Só se conhece bem as pessoas quando se estala o verniz.
Não tinha bate chapas,
a vida é feita de amolgadelas.
Não alinhava direcções,
ninguém vive em linha recta.

Foi à falência.
Os clientes queixavam-se de que não eram enganados o suficiente para gostarem mais de si mesmos.

Banda sonora de pensamentos para longas noites

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Quem tem filhos pequenos às vezes tem longas noites em que os intervalos são feitos de sono. Com febre, sem dramas, faz parte da viagem e quando não se dorme deixa-se a cabeça viajar por aqui e por ali.

Foi por ali que fiz uma pequena lista mental de músicas dedicadas à febre e, genericamente falando, há umas quantas especialmente se a metáfora for o amor. Não renegando os clássicos gosto desta sem videoclip que, apesar de estar bem sacado, atribui-me um conceito específico à música e eu prefiro-a em vácuo.

Outro tema, mais vasto e abordado de forma mais subconsciente, pois já tinha pensado nele várias vezes é a importância da música em filmes (falando especificamente, claro está, pois a música é para mim algo essencial na vida). Imagine-se ver um filme sem som e a emoção cai drasticamente e toda a envolvência torna-se muito mais racional.

E hoje de manhã, ajudado também por um tema pirata que deu à costa, cheguei de novo a umas quantas cenas de filmes, numa lista a rumar ao infinito, em que me lembro de ser miúdo e ter ficado preso pela banda sonora à cena, em registo murro no estômago. Assim de repente, ‘The Death of Sergeant Elias’ no Plattoon ou a ‘música da morte’ nos Intocáveis, esta última obra do mestre Morricone, que é e será sempre uma referência top no meu livro.

Mas, e porque era de sono e de noites que estava a falar, há um trecho que gosto muito e vem de um filme cuja abordagem pouco usual me cativa, quer no uso do Jim Carrey, quer em toda dinâmica premonitória dos reality shows. Trata-se de Truman Show e pelo meio de toda obra exemplar do Phillip Glass, este ‘Truman Sleeps’ para mim é uma receita mágica para relaxar, trabalhar, divagar, planear, suspirar ou, pura e simplesmente, ouvir.

Mas tu só gostas de som dado à melancolia meu madraço? Claro que não, há muita energia positiva, rima e violência gratuita nas minhas playlists, mas considero muito mais difícil criar melancolia sublime que não seja apenas choradinho por choradinho, do que hinos à alegria, com respeito pelo êxito original com esse nome.

A normalidade da omnipresença

Em tempos tinha sido o responsável por tudo. Ia a todas sem medos, com medos e até com ligeiros receios, não tinha tempo para se deter com avaliações. ‘Mas você está em todo o lado?’ perguntou-lhe um tipo que encostara à berma com um pneu furado na bicicleta. Acabou por responder que sim, mas já no segundo seguinte, a uma velhota que tinha sido atacada por pombos insatisfeitos com a qualidade do pão que lhes atirara.
O tipo da bicicleta não ouviu a resposta e mas correu feliz serra acima atrás da bicicleta que ganhara vida.
A velhota achou que, para bêbado de jardim, tinha uma voz muito profunda e tinha jeito para pássaros.
Um dia fartou-se de ser responsável por tudo o que não interessava para nada.
Desligou a omnipresença e foi-se deitar.

Rei Leão das Patilhas: o filme

Se nunca ouviste falar deste nome, é porque ele nunca te tentou comprar o teu carro usado deixando um simpático folheto no teu vidro, prometendo-te dinheiro a pronto.

Não questionando o maravilhoso mundo da compra de carros usados recorrendo a folhetos da pior espécie, a minha dúvida é: como poderá Rei Leão das Patilhas ter esse nome e não ser um qualquer personagem de filme de animação?

Imagino-o tendo não um stand ou garagem, mas sim uma caverna onde, com voz profunda, recebe aqueles que entram nos seus domínios. Uns saem com dinheiro a pronto e já sem o seu carro, outros desaparecem para sempre.

No próximo episódio: será possível ter uma loja de ‘nails’ com um nome digno?

X% de crianças, X% de bloggers, X% de Skip e muito pouco X% de relevância

Uma boa % de mommy bloggers nacionais acordaram nos últimos dias a acreditar a 200% na mensagem da campanha da Skip (e a campanha original é boa, acrescente-se) que diz que 70% das crianças brinca menos de uma hora por dia ao ar livre e que há malta nas prisões que vai para o recreio mais tempo que eles.
Contudo, as casas de apostas apontam para que menos de um terço (33%), opte por aumentar a % do tempo que as crianças passam lá fora a brincar, pois a transcrição a 100% do guião da marca denota mais uma parceria 50-50 com a marca a troco de algo que certamente não é tempo livre e menos uma reflexão sobre o tema,

Se 20% das visadas optasse por uma inclusão 75% mais orgânica do tema num post que abordasse o assunto (concordassem ou não com o princípio), se calhar a campanha teria um impacto de social media que valesse não só pelo número de impressões, visitas e comentários, mas também por um aumento de 1% que fosse na discussão sobre se o futuro das crianças é 85% digital a manobrar tablets e telemóveis e 15% a arejar ou se os números não batem certo.
E a discussão entre o que são actividades programadas e ‘brincadeira ao ar livre’ ficam para uma próxima percentagem em posts futuros.

Grabbing hands

‘The handshake
Seals the contract
From the contract
There’s no turning back
The turning point
Of a career
A career, of being insincere’

Apertos de mão, um mundo de sinais e capítulos seguintes. Mole é mau, forte é bom mas precisa de enquadramento. Selam coisas, trazem outras novas ou deixam tudo em aberto. Mãos suaves, mãos ásperas, mãos femininas em homens, mãos de homens em mulheres, tudo é possível se souberes o sinal secreto.
São breves, são longos, são a primeira parte de um ballet moderno, são o último acto de um adeus. Celebram a amizade, elevam a traição, retiram a confiança, carimbam destinos. Juntam-se outras mãos sobre eles, depositam-se beijos, avaliam-se relógios.
Quantas horas se passam a apertar mãos durante uma vida?

A plasticidade da arte de dizer bom dia

Há quem diga que dizer bom dia é sinal de educação. Creio que é uma visão correcta, mas simplória da coisa. Dizer bom dia, na realidade, é um desafio que implica de facto educação e o cumprir de um ritual mas, acima de tudo, é a arte plástica de transmitir ao interlocutor todo um conjunto de sensações subjacentes.

Dito comme il faut, há o bom dia enérgico, típico (e por vezes irritante) das morning persons. Há o bom dia sensual, há o lado negro do bom dia sensual, que é o bom dia excessivamente meloso e viscoso.

Há também o bom dia vai-te foder, muito parecido com o bom dia vai à merda, mas um pouco mais agressivo.

Há o bom dia vou-te lixar daqui a bocado e há até o bom dia da bruxa da casinha de chocolate (o bom dia armadilhado). Há o bom dia picador de gelo, normalmente transita de assuntos mal resolvidos no passado.

Há bons dias que querem dizer adeus e bons dias marinados em desprezo. Há o bom dia envergonhado que mal se ouve e o bom dia alarve de macho (an)alfa(beto).

Há o bom dia de segunda, que começa a ser dito a ti mas acaba a ser dito a alguém mais interessante/importante que entretanto apareceu.

Há o bom dia caguei para ti, que é como quem diz ‘bom dia’ mas podia estar a dizer ‘salame com banana’ e há o bom dia depressivo, em que se ouve bom dia dito em tom de I hate myself and I want to die e se calhar levo mais uns quantos comigo.

E isto é só uma amostra matinal, não inclui sequer o boa tarde, o boa noite e o ‘então, tudo bem?’ que não é uma pergunta mas sim uma frase que não se quer ver respondida.

Terapia de escadaria


Procura uma escadaria alta na tua cidade. Não te preocupes se não for épica, se for alta chega perfeitamente e alta é ter mais degraus do que os que consegues contar à primeira vista. Não te preocupes também se tem mais ou menos gente, certamente conseguirás encontrar uma hora em que as pessoas são menos que os degraus. Não te preocupes com o facto de correres mais ou correres menos, vai ser uma coisa de instinto não de performance atlética.

Depois, corre por ela abaixo, com velocidade adequada ao alívio e sensação de liberdade que procures.

Quando resulta bem:

Tal como um comboio que sai da estação, conforme vais descendo, a tua velocidade vai subindo. De degrau em degrau vai aumentar a vontade de saltar dois degraus, três talvez? O piso, o tempo, a velhice das escadas, tudo isso serão contas feitas em segundos conforme a velocidade se desdobra e contornas quem se ouse a cruzar contigo. O corrimão é um amigo, mas às vezes gostamos de não os ouvir, um toque ali e outro acolá, mas a descida é quem manda. E o último salto, quando o fim já está à vista? Vais fazer um lance? Dois degraus? Vais olhar para trás e querer começar tudo de novo? Seja como for, já valeu a pena desde o degrau do qual já nem te lembras, mas que irás recordar perfeitamente se decidires fazer o percurso a subir.

Quando não resulta bem:

As pessoas vão visitar-te ao hospital, vais ter tempo para conversar ou, pelo meio das dores, fazer gestos e olhares compreensivos. Há um mundo de coisas que podes comer através de uma palhinha que te vai ser apresentado. Um dia, com a dentição reconstruída, vais rir-te deste momento.