Três anos para sorrir na meia das Lampas

Longe do lado fashion da corrida, das meias maratonas de massas à beira rio ou das incríveis provas épicas que muita gente amiga à minha volta já fez ou se está a preparar para fazer, há uma pequena localidade na zona de Sintra que leva muito a sério a tarefa de receber bem quem lá vai correr, dando-lhes pequenas tareias, pelo meio de incentivos e calor humano no final.

Em essência, São João das Lampas é assim e é essa a razão porque a sua Meia Maratona é possivelmente a única prova em que fui presença constante nos últimos 3 anos, pelo meio de tanta animação familiar, etc. A explicação, para além da tradição da que penso ser a segunda meia maratona mais antiga do país, na minha cabeça é simples:

– No calendário (início de Setembro) é boa para desmoer depois das férias.
– Sendo raro fazer actualmente meias maratonas de estrada, ao menos esta é pitoresca, tem algum desnível e faz suar do bigode.
– Há farturas no fim.
– Aquilo é cross-country for old men, ou seja, em 600 participantes não será estranho se 50% tiver de 50 anos para cima. E todos eles a passar por mim a assobiar. Há esperança para o futuro eu corredor.
– Há melancia e biscoitos no fim, antes de ir às farturas.

No primeiro ano, entre rampas à bruta que não matam mas moem, calor e a pouca rotina em combinar ritmo vivo / desnível, borreguei à moda antiga e só com ajuda de um ‘reboque’ amigo, consegui acabar com alguma dignidade. Sorrisos só na perspectiva idiota de pensar em voltar.

O ano passado, o meu filho tinha nascido há três meses e eu ainda andava a apanhar do ar. No entanto, o facto de já conhecer o percurso ajudou a gerir a coisa (e, pelo que tenho vist e, sem queimar o motor, deu para fazer a 5mins/km e acabar com um esgar que até parecia um sorriso.

Este ano, a história era outra: Um ano de presença quase regular nos treinos da Hora do Esquilo em Monsanto (um laboratório sem igual para todas os gostos e vontades de correr e aprender), o à vontade completo com o percurso e o ‘repouso’ (fantasiado) de três semanas de férias sem deixar de treinar, levavam-me a aspirar, no mínimo a fazer a coisa tranquilamente com o propósito de rapidez = sorrir a subir (e eu gosto mais de subir). O tempo logo se via.

E de facto, o tempo logo se teria que ver mesmo, porque me esqueci de relógios e afins, no meio de eventos familiares e o caos habitual de transportes do pequeno império do mini-cidadão. Ok, vou ter que me guiar por sensações (coisa que nunca promete). Pelo menos, ao levantar o dorsal, a oferta de uma garrafa de vinho a comemorar os 40 anos da prova prometia facilidades a afogar mágoas da prova.

Na largada, há sempre uma saída em fúria de búfalos corredores, veteranos trituradores, malucos aceleras e tudo o resto. Sabendo bem que os 5k iniciais descem mais do que sobem, vou tranquilo a vê-los passar e um até grita ‘Rampas? Mas quais rampas? Isto é só descidas’. Gosto muito da primeira grande descida em que se vê o pessoal já começar os 2kms e tal a subir que se seguem. Por mais estúpido que pareça, anseio por essa subida para avaliar a condição do dia.

Lá chegados, o passo constante e sereno é suficiente para ir recuperando lugares, quem me ultrapassa é maioritariamente gente que começou tarde para acabar cedo. Por volta dos 8kms de prova, quando a coisa nivela um bocado, sinto-me bem mas sei que até voltarmos a S.João, a meio da corrida, ainda faltam 4/5 kms de sobe e desce, em que aquilo que se acelera a mais paga-se na subida seguinte. Muitos dos que medem mal o esforço (mais na faixa de quem faz uma prova rápida, não tanto em quem tenta apenas completar) começam a vacilar aí. Vou trotando por ali fora, particularmente fascinado com um velhote que vou apanhando nas subidas apenas para o ver distanciar-se em recta ou em descida.

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O regresso intermédio à vila, não respeitando peões na passadeira.

Quando se volta à vila, a noção é simples para quem conhece o percurso – faltam 8kms e o pior já passou, mas ainda tens 3 ou 4 subidas para gerir a velocidade/capacidade que tenhas. Sem relógio, telemóvel vai no bolso dos calções, pergunto ao companheiro de ocasião a quanto vamos. ‘FDX, 1h06m de prova e ainda vamos a meio’ diz ele e eu animo-o, dizendo que falta menos de metade. ‘FDX e as subidas?’. Encolhemos os ombros e seguimos – rampas não se debatem, fazem-se. A primeira subida depois do retorno à vila é puxadita, ), nem que seja pelo factor anímico (quem ler isto e conhecer Sintra em trail fique descansado, isto é só alcatrão para meninos). A meio da subida passo pelo tipo que dizia que aquilo eram só descidas e, pelo que vejo, já parece convencido que não é bem assim. Não digo nada porque é foleiro mandar bitaites a pessoas em dificuldades, mas nada proíbe uma espécie de ‘Toma, toma, toma’ mental.

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Selecção exímia leva a encontrar subida com sorriso em estilo.

Feita essa, continuo bem (suado que nem um porco, apesar do calor não ter sido tão forte como noutros anos) mas o estômago previne-me que devia ter almoçado mais cedo – como penalização irei a arrotar a ‘alho francês à brás’ até final da prova. Nessa fase já ninguém me ultrapassa, quem tem cabedal já vai lá mais à frente, quem eu estou a passar está em quebra ou no limite. Fazem-se mais duas subidas, vários populares batem palmas e fazem a festa, eu já me mentalizei na melancia e nas farturas e vou sorrindo. O céu está cada vez mais encoberto, refrescou bastante nesta ponta final, mas isso é bom. Vejo dois ou três tipos a ligar o turbo à marca dos 18kms, mas sei que falta ainda mais uma subidita. Feita essa, começa a recta que leva até à rua principal de São João e à meta.

Acelero mais um bocado e sinto que a coisa vai lá. A menos de um km da meta vejo o velhote que me limpava a descer, vai no seu limite mas ainda lhe está a dar. O tipo que está entre mim e ele está a dar tudo para tirar uns segundos e ultrapassa o velhote nos últimos 200metros. Sinto que podia fazer o mesmo, mas penso: tive 20kms para o passar, se não consegui – respect comes first. Fica 1 ou 2 segundos à minha frente, mas desta vez deu para cortar a sorrir (vi depois que este veterano ficou no pódio na categoria +65 anos – tenho umas boas décadas para treinar).

Melhor tempo na prova mesmo sem relógio, melancia ingerida com satisfação, biscoitos e farturas top como sempre, assim como a simpatia da organização. Foi a terceira vez que lá fui correr este ano, entre treinos, trails e tareias em alcatrão. Para o ano que vem, podem contar de novo comigo, seja por masoquismo, seja por gosto em voltar onde somos bem recebidos.

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4 pensamentos sobre “Três anos para sorrir na meia das Lampas

    • Recomendo, dentro do alcatrão é das coisas mais simpáticas nas redondezas 🙂 E, com vinho antes e feirinha mesmo ali ao lado depois, mesmo se não for pelos resultados, sais sempre de lá com a barriga cheia 😀 (diz o alarve que corre de braço dado com a massa gorda).

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