Probabilidades

O mundo é feito de probabilidades, sejam elas de vida, de morte ou daquela sobremesa que tanto cobiçavas ser uma desilusão, pois as expectativas que criaste são muito maiores que a qualidade dos seus ingredientes.

Uns desafiam-nas, outros jogam com elas, pondo tudo na mesa ou escondendo outro tanto debaixo dela. Muitas vezes elas existem sem sabermos que as temos a nosso favor, noutras vezes batem-nos à porta só para nos informarem que não nos são favoráveis.

Mas, acima de tudo, uma probabilidade é um número relativo e não uma realidade. Esqueçam o copo meio vazio ou meio cheio, é possível que haja a probabilidade do copo vos escorregar da mão na hora de beberem ou a probabilidade daquela água já não estar condições de ser bebida.

Sendo do contra, encaro sempre as probabilidades na sua lógica inversa – se três em cada quatro gajos passam o exame, vamos tentar saber em que condições é que o quarto normalmente se estampa. Se há uma probabilidade de 1 para 100 de um raio cair numa árvore do jardim em que estou, vamos olhar com respeitinho para aquela árvore que vamos escolher e transmitir-lhe a confiança da nossa escolha.

Quando finalmente o cenário passar de probabilidade a realidade, se ainda cá estivermos para contar a história, olhemos em volta e façamos as contas – se correr bem, é provável que digas ‘Eu bem te disse’, se correr mal é bem provável que te digam ‘Eu bem te avisei’.

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Se és burro dos vinhos, goza com o dos vizinhos

Não percebendo eu muito de vinhos para além do Gosto / Não Gosto / Isto sabe-me a …… (inserir referência séria ou idiota, consoante a disposição) sou obrigado a valorizá-los em função da companhia. Se estou com eruditos da vinha, aceno com atenção, saboreio com respeito e espero por um tema em que possa acrescentar valor ou, no limite, engasgar-me com algum charme. Se estou com gente tão vinicolamente burra como eu, o objectivo é unicamente servir combustível para a conversa e esperar que ninguém se queixe que aquilo é, literalmente, combustível.

Agora, passatempo realmente interessante é estar em restaurantes a tentar perceber, quando o vinho chega às outras mesas, quem é que são os burros dos vinhos que disfarçam bem e aqueles que embora não percebam muito, compensam com pompa e dinamismo, ao fazer spinning e cross-bochechating ao nível de palato e um rápido mas pausado ‘É bom’.

Não sei ao que o vosso vinho vai saber, mas uma coisa posso garantir-vos, a vossa performance ajuda-me a saborear o meu, por mais carrascão que seja.

Até ao osso

Saí para a chuva.
Cego pelo cheiro húmido do asfalto, corri o mais que pude.
Sem ver, sem pensar, simplesmente fui, esperando que o universo me saísse da frente.
Sentia a água que caía a dissolver-me por entre tudo o que me rodeava.
Foi-se a roupa, foi-se a pele, foi-se a carne.
Até ao osso.
Despido de tudo, continuei, levado por uma força maior.
Já fragmento de mim próprio, finalmente arranjei força para parar.
Ajoelhado, dei por mim a chorar, sem o conseguir fazer.
Era só a chuva que escorria por entre a minha alma.

A Arrábida, uma colher e um sonho

Fiz uma promessa a mim próprio: só faço relatos épicos de corrida quando fizer provas minimamente dignas desse nome, pelo menos no meu patamar. O que significa que, até prova anterior em contrário, Abril de 2017 – 50kms no Piodão é a data de tal texto.

Até lá, economia na prosa em corrida e menos de duzentas palavras para o que vá palmilhando pelo caminho. O que nos leva ao IV Duratrail de sábado passado na Arrábida.

Já me tinha decidido pelos 28kms porque, penso eu, que para os 53kms ainda me faltava um bocadinho, sobretudo cabeça e rotina. A rotina é levar porrada em terrenos que não domine, se possível com gente que os domine, a cabeça é, ironia das ironias, para lidar com a minha maior contrariedade: estômago sensível.

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A Arrábida serviu para isso, tal como o Zêzere irá servir em Novembro: testar, adaptar, resistir e evoluir. O Duratrail foi porreiro, ainda que mais duro do que esperava (desnível concentrado em 3 ou 4 subidas ‘monstrengas’, muita pedra solta, etc), em especial com 27 graus e sol de embarda em outubro. Gostei da prova, classificação final um pouco acima do meio da tabela sem querer estoirar tudo nos últimos km’s e apontamentos tirados.
Lições: Erro ao não abastecer com mais calma no 1º dos 3 abastecimentos, erro ao não ir às barras com sal mais cedo, erro ao não deixar para o fim as cenas mais softs para mastigar quando já começo a ficar ligeiramente nauseado, decisão certa ao apostar na Coca-Cola no segundo abastecimento (acho que ajudou literalmente a colar o estômago) e decisão certa ao optar só por laranjas no último abastecimento, pois com 4 kms para a meta, gerir só líquidos foi mais fácil. Decisões futuras tomadas: os eletrólitos que tenho em cápsula são para ir à vida, a sua ingestão nunca me dá boas sensações. Ser ainda mais mecânico nas doses iniciais de comida/água/isotónico – não posso fiar-me enquanto me sinto bem, porque depois da virada já não dá.

Ainda assim, não foi o acontecimento mais marcante do fim de semana, isso teria sempre que vir em segundo lugar face ao evento que é vermos alguém a comer pela primeira vez a refeição completa sozinho com a sua colherzinha. E não me refiro a mim, felizmente eu há já três semana que aprendi a usar talheres. Obviamente o chavascal é total, porque vontade e perícia nem sempre andam de mãos dadas.

Embora numa nota talvez um pouco mais melancólica, domingo acabou com a visita de um velho amigo num sonho, infelizmente a única forma, a par da memória, que nos resta para colocar a escrita em dia. Não foi nada de tétrico, apenas a saudade a manifestar-se de forma singular: uma conversa bem disposta em que, a dada altura, ambos soubemos que ele tinha que ir e eu tinha que ficar, mas podíamos ir caminhar mais um bocadinho, se bem que tive que o convencer para irmos a pé, já que ele preferiria sempre ir de carro. Vai aparecendo miúdo, seja como for também nunca te vou deixar desaparecer dessa maneira.

Apertem bem os cintos

Os sonhos que se poderão seguir a estas palavras têm o patrocínio dos programas de desastres de avião que achaste por bem usar como tempero das últimas horas. A tragédia é a tragédia, mas horrorizou-te mais a leviandade da ‘falha humana’, sempre à espreita, quais dados que se lançam acreditando que 1 e 1 nunca vão sair.

É nisso que apostas, na probabilidade de que o dia bem passado armado em turista na tua cidade supere erros de altitude, falhas em peças e imprevistos assassinos.

1 e 1 nunca te costumam sair, mas tu também nunca falas de ti na terceira pessoa e já levas três parágrafos nisto.

Agarra bem essa almofada e não pontapeies dama incauta.