A Arrábida, uma colher e um sonho

Fiz uma promessa a mim próprio: só faço relatos épicos de corrida quando fizer provas minimamente dignas desse nome, pelo menos no meu patamar. O que significa que, até prova anterior em contrário, Abril de 2017 – 50kms no Piodão é a data de tal texto.

Até lá, economia na prosa em corrida e menos de duzentas palavras para o que vá palmilhando pelo caminho. O que nos leva ao IV Duratrail de sábado passado na Arrábida.

Já me tinha decidido pelos 28kms porque, penso eu, que para os 53kms ainda me faltava um bocadinho, sobretudo cabeça e rotina. A rotina é levar porrada em terrenos que não domine, se possível com gente que os domine, a cabeça é, ironia das ironias, para lidar com a minha maior contrariedade: estômago sensível.

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A Arrábida serviu para isso, tal como o Zêzere irá servir em Novembro: testar, adaptar, resistir e evoluir. O Duratrail foi porreiro, ainda que mais duro do que esperava (desnível concentrado em 3 ou 4 subidas ‘monstrengas’, muita pedra solta, etc), em especial com 27 graus e sol de embarda em outubro. Gostei da prova, classificação final um pouco acima do meio da tabela sem querer estoirar tudo nos últimos km’s e apontamentos tirados.
Lições: Erro ao não abastecer com mais calma no 1º dos 3 abastecimentos, erro ao não ir às barras com sal mais cedo, erro ao não deixar para o fim as cenas mais softs para mastigar quando já começo a ficar ligeiramente nauseado, decisão certa ao apostar na Coca-Cola no segundo abastecimento (acho que ajudou literalmente a colar o estômago) e decisão certa ao optar só por laranjas no último abastecimento, pois com 4 kms para a meta, gerir só líquidos foi mais fácil. Decisões futuras tomadas: os eletrólitos que tenho em cápsula são para ir à vida, a sua ingestão nunca me dá boas sensações. Ser ainda mais mecânico nas doses iniciais de comida/água/isotónico – não posso fiar-me enquanto me sinto bem, porque depois da virada já não dá.

Ainda assim, não foi o acontecimento mais marcante do fim de semana, isso teria sempre que vir em segundo lugar face ao evento que é vermos alguém a comer pela primeira vez a refeição completa sozinho com a sua colherzinha. E não me refiro a mim, felizmente eu há já três semana que aprendi a usar talheres. Obviamente o chavascal é total, porque vontade e perícia nem sempre andam de mãos dadas.

Embora numa nota talvez um pouco mais melancólica, domingo acabou com a visita de um velho amigo num sonho, infelizmente a única forma, a par da memória, que nos resta para colocar a escrita em dia. Não foi nada de tétrico, apenas a saudade a manifestar-se de forma singular: uma conversa bem disposta em que, a dada altura, ambos soubemos que ele tinha que ir e eu tinha que ficar, mas podíamos ir caminhar mais um bocadinho, se bem que tive que o convencer para irmos a pé, já que ele preferiria sempre ir de carro. Vai aparecendo miúdo, seja como for também nunca te vou deixar desaparecer dessa maneira.

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2 pensamentos sobre “A Arrábida, uma colher e um sonho

  1. Hombre, se alguém está preparadíssimo para ir à distância ultra, esse alguém és tu. Mas compreendo que tenhas preferido reservar a epicidade do momento para uma altura em que pessoas pequenas já estarão aptas a usar aqueles ganchinhos de sacar os caracóis – em Abril já «á caracóis»? 😉
    Entretanto, acho mesmo que devias era ir aos Amigos da Montanha em Novembro. Não é só porque preciso de despachar o meu dorsal, a sério. É porque a prova é espectacular. E, em fazendo a coisa com jeito, a minha tia leva-te uns bolinhos à meta. Sim, eu sei, não te apetecem bolinhos no fim das provas. Mas isso é nas outras, nos Amigos da Montanha começas logo com bolas de Berlim numa fase inicial da prova, o estômago vai com a caminha feita.

    • Gracias 🙂 Estou certo que lá chegarei, fossem os Amigos em Dezembro/Janeiro e ficava-te com a comenda e com tudo o que tenho direito. Mas isso é uma semana depois dos 35kms (1600D+) do Zêzere, para a qual já estou inscrito. Mas atenção, se bem que logo depois de cortar a meta não me apeteça muito comer, dá-me 20/30 minutos e logo surge o chamado efeito ceifeira-debulhadora de morfes pós-trail.

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