Que outros usem as palavras

A mim, que não lhe fui assim tão dedicado, interessa-me fazer o que sempre fiz: ir ter com ele e pedir-lhe directamente aquilo que de melhor tinha.

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Sonho de uma noite de táxi

Acabei de dar aulas já para lá das 23.30. Quis o cansaço, a falta de bateria no telemóvel e a aragem nocturna que deixasse a viagem de regresso nas mãos do destino – E se eu apanhasse um táxi em vez de ir de Metro?

Ditei as regras: são três minutos a pé até ao Metro, se passar um táxi, eu vou nessa. Passou o primeiro, ocupado, o segundo, idem e, quando já estou quase ao pé da entrada do Metro, eis que do outro lado do cruzamento surge um táxi a toda a velocidade e trava por causa do sinal vermelho.

É agora, penso eu, começo a atravessar a estrada, aproximando-me dele quando a alta velocidade surge um carro que ultrapassa o táxi, trava e bloqueia-lhe o caminho. Resolvi seguir o exemplo e travar também de forma brusca.

Começa uma troca de galhardetes à bruta, sai um ninja brutamontes do carro, o gajo do táxi aos gritos, o ninja a desafiá-lo para uma valsa, o taxista a propor-lhe uma troca de dicas de física quântica e receitas de pão de ló. O Mitra Summit estava a começar.

Senti-me, por instantes, o puto do Sexto Sentido.

Fiz rapidamente moonwalk e, perante as duas principais hipóteses (eu a ser árbitro de um combate de MMA chunga urbano vs eu a entrar num táxi com um gajo embebido num cocktail de raiva e rancor), lá fui eu de Metro.

Posso dizer que correu tudo bem e, graças a este episódio, os dois gajos que iam na carruagem a treinar argolas e mortais olímpicos pareceram-me extremamente normais.

A síndrome de Camões (ou as vistas curtas dos mitos)

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A síndrome de Camões (inventada por mim com o apoio da Universidade de Badmington) explica a base de apoio no crescimento de qualquer mito. A nossa vontade de criar narrativas ajuda facilmente a que nos esqueçamos do pormenor a que se chama realidade, servindo o passar do tempo para dar dimensão e estrutura à efabulação. Se eu vos disser que hoje à hora do almoço vi um zarolho a nadar no Tejo e a sair da água com um iPad totalmente seco na mão, vocês torcem o nariz, mas se evocar um episódio épico da vivência de Luís Vaz de Camões…a história é outra.

Vejamos então a situação de Luís Vaz:

O Mito não verificável:

‘Voltou a Goa, naufragou na viagem na foz do Rio Mecom, mas salvou-se, nadando com um braço e erguendo com o outro, acima das vagas, o manuscrito da sua imortal epopeia, facto documentado no Canto X, 128. Nesse naufrágio viu morrer a sua “Dinamene”, rapariga chinesa que se lhe tinha afeiçoado.

Notas: Acrescente-se que Camões já era zarolho por esta altura, o que passa o nível de dificuldade de ‘Very Hard’ para ‘Insane’

A realidade provável, igualmente não verificável:

Tentando facturar com jovem Dinamene, Camões convida-a para um passeio de barco a remos nas margens do Mecom. Usa gibão de manga cava para mostrar músculo enquanto rema. Por ter passado demasiado tempo durante a tarde a beber aguardente de arroz com uns compinchas, de forma arranjar coragem para além da prosa, Camões já não tem tempo de ir guardar o seu manuscrito em lugar seguro e vai directo da tasca para o encontro com Dinamene, repetindo várias vezes para si mesmo que não lhe irá perguntar cenas sobre aquele mito das chinesas e coiso e tal. O tempo está óptimo para a prática de engate em barco a remos e Camões, corajoso via álcool, faz vários números de remada à macho. Dinamene ri-se, sem se comprometer.
A dada altura, tanta palhaçada dá em barco a vacilar e, num momento de lucidez, Camões opta por salvar o manuscrito em vez da donzela que vai ao charco. A água dá pela cintura, mas ETARs é coisa que não há no Mecom e Dinamene não aprecia o banho. Levantando o manuscrito bem alto, Camões tenta ir atrás da moça e salvar a noite mas já se sabe que chinesa encharcada não é dada à marmelada. Sozinho, Camões reflecte sobre o efeito da temperatura do Mecom em partes pouco protegidas pelo gibão e escreve mais uns sonetos dedicados à tragédia que foi ficar sem a sua musa. Talvez não seja má ideia matá-la e aumentar a profundidade, quer dos textos, quer da água que enfrentou para salvar o manuscrito.

 

Embora seja altamente discutível a credibilidade da minha sugestão da realidade provável, esta só sofre mais pela força do mito que vive há séculos. Ninguém acredita que tudo tenha acontecido como a história reza, mas é uma tanga tão boa como outra qualquer.