Não descansaremos em paz. Ou como um dia vamos ser fantoches digitais nas mãos dos nossos netos

Isto não é um texto sobre a Guerra das Estrelas, até porque não é numa galáxia bem distante que se passa esta realidade e também não aborda o tema Mário Soares, porque assim consigo permanecer um dos dez portugueses que ainda não emitiu uma opinião pública sobre o seu falecimento.

É um texto que fala sobre a abolição da morte por via da revolução de ferramentas digitais, que um dia nos irá tirar a hipótese de um eterno descanso para, por exemplo, animarmos perpetuamente o jantar de Natal da família.

E menti, esta reflexão começa exactamente no Rogue One, o novo filme do universo Star Wars. Não precisam de saber nada sobre isso a não ser o seguinte: no filme, o actor Peter Cushing volta a dar vida a Grand Moff Tarkin, figura que já interpretara no filme inicial da saga (1977).

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Tudo tranquilo, tirando que Peter Cushing, depois de uma longa e profícua carreira, já morreu há mais de 20 anos. Obviamente, não é um papel extenso, mas também não é uma aparição fugaz como aquela que no final do filme contempla a mais recentemente desaparecida Carrie Fisher. Para além de todo um trabalho de CGI e efeitos especiais, teve que haver acordo com os herdeiros do legado de Cushing, para permitir que footage inédita de arquivo fosse pesquisada, retrabalhada e reorientada a partir do filme original para ser projectada no corpo de um actor escolhido para ‘receber’ a imagem de Tarkin/Cushing.

A meu ver, o esforço titânico que foi feito não é recompensador, tirando pelo lado nostálgico. Mas, mais do que o efeito final da produção, o efeito moral é que me deixa a coçar as barbas pós-modernas. Até que ponto é lícito ‘ultrapassar’ o facto de alguém que está morto há 20 anos é posto a trabalhar de novo, por acordo com herdeiros que nunca será algo igual à sua vontade (partindo do princípio que Cushing não disse no seu testamento, ‘Hey malta, quando a tecnologia permitir, gostava que me retirassem do túmulo e me juntassem digitalmente a novas produções’).

Será este apenas um ligeiro e ténue esboço do que está para vir? Numa altura em que bebés e crianças crescem a ter arquivos digitais (e sociais) da sua vida, estarão os seus pais também a salvo? Agora é impensável pelos custos e tecnologia mas quem me diz a mim que daqui a 20 anos o que fizeram a Cushing não é tão fácil como uma espécie de Facebook Live com montagens de arquivo? Terei eu que estipular no meu testamento que desejo continuar morto e não a ser utilizado em projecções holográficas para animar convívios com as minhas piadas frouxas?

Que o conceito de memória e separação pela morte, por muito penoso que seja, possa ser substituído por um agridoce e tecnológico ‘reviver do passado’, em que para além de viver agarrados ao que já não volta, poderemos um dia ansiar por viver num jogo de espelhos que pode ser reconfortante, mas dentro de um panorama bastante doentio?

Não tenho a resposta certa, só a minha sensação em relação a isso mesmo: não mexam no conceito saudade, já basta o que fizeram ao gourmet, ao vintage e por aí em diante. E daqui a 75 anos, podem pôr-me a dançar e dizer isto na inauguração da Mercearia Digital Gourmet Vintage dos meus netos.

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4 pensamentos sobre “Não descansaremos em paz. Ou como um dia vamos ser fantoches digitais nas mãos dos nossos netos

  1. É uma boa questão, mas acho que pensei nela de forma um pouco diferente.

    Primeiro, em relação à “participação” do Cushing no Rogue One, achei creepy e escusado. Creepy porque aqueles 1% que faltam de realismo perturbam imenso as cenas. E escusado porque podiam perfeitamente ter usado um actor normal. Número de vezes que alguém se queixou de não ser possível ter utilizado uma versão digital mais nova do alec guiness para fazer de obi-wan nas prequelas: zero.

    Sobre a recriação dos nossos eu “reais” num eu “digital”, concordo que também é perturbadora (e há, obviamente, um episódio do Black Mirror sobre isso). Mas diz mais sobre quem sente a necessidade de fazer isso do que afecta realmente o “visado”. Sinceramente, é-me indiferente se os meus bisnetos quiserem conviver com algum tipo de bot com a minha imagem. Por um lado até é elogioso, que me queriam lembrar dessa maneira. Os antigos faziam bustos, nós faremos bots? Não sei. Por outro lado é um bocado pretensioso achar isso, porque eles provavelmente vão estar-se a cagar para mim.

    Eu acho que a questão do Cushing é ligeiramente diferente por outra razão. Tem a ver com o legado artístico do homem. Aquilo que foi o trabalho da vida dele. Ponho essa questão no mesmo nível daquelas edições póstumas de escritores, muitas vezes efectuadas a partir de rascunhos, ou obras inacabadas. Pode ter simultaneamente uma lógica gananciosa da família e uma desrespeito à vontade do autor. É isso que me faz mais confusão, imaginar que ele podia ficar horrorizado com a ideia de um dos papéis que fica no seu legado como actor ter sido programado por um exército de geeks na Califórnia. Espero que não.

    • Sim, a minha futura replicação em CGI estará sempre a anos luz do legado do Cushing e torna a minha alusão um exercício de fanfarronice que espero venha um dia a ser descoberta pelos meus parentes nesta plataforma.

      Também estamos de acordo – o ‘reviver’ do Tarkin foi um puro exercício de ‘yes we can’ tech-geeky. Não só podia haver lugar para um outro actor ou a presença do Cushing ter sido reduzida a um contacto holográfico e não presencial (a iluminação ficou estranha, o brilho foi trabalhado mil vezes até decidirem que o melhor era deixar como no original). Mas foi um fartote de guita investida para algo de resultado dúbio.

      E sim, em casos de legado artístico a coisa adensa-se porque até agora não tem sido matéria de debate este tipo de apropriação e é claro que a concordância de quem gere o legado de Cushing também passou por umas malas de dinheiro. E, sem vontade expressa em contrário, vai ser sempre quem fica por cá que decide.

      E já se sabe que os vivos decidem sempre pior que os mortos, basta ver o The Walking Dead 😉

  2. Andaram a fazer disto com o Fidel uma data de anos, não é propriamente novidade. Mas é uma questão interessante, sobretudo do ponto de vista da “propriedade da identidade”. Talvez isto de nos estarmos a habituar não só a existir mas a “ser” sempre na esfera pública, em vida, nos prepare para isso em morte. Não sou bom exemplo de apego à minha pessoa, estou sempre a dizer para me distribuírem os órgãos todos se me espetar numa curva da A5.
    Agora, quem queira pegar nisto na perspectiva de alma imortal, como eu pego, não encontra problema. Aquilo que eu acredito ser a minha alma imortal viverá para sempre e livre de qualquer registo terreno, físico ou digital. O resto são artefactos.

    • Pois, se entrarmos no campo da alma, então isto pode virar vasto debate filosófico e nem é preciso entrar no campo da ressurreição 🙂 Limitando o campo de debate, o registo de ‘propriedade’ obviamente, como debatia ali com o André não afecta o morto, mas a ausência de consciência do que pode vir a ser feito com a tua propriedade artística (ou pessoal) é um paradigma do tempo. Não sabendo o que será possível no futuro, como posso eu opinar em vida sobre o que quero que seja ou não feito. No caso de um actor/músico/etc é a apropriação de algo que pode estar longe daquilo com que se identificava. No caso pessoal, é também uma nova forma de lidar com a morte ou, como referi, com a saudade/ausência. O que são coisas muito falíveis em termos de conclusões absolutas…

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