O nosso índice de ‘efemérides’ a comemorar anda ao nível da uaubesidade mórbida

Começando pelo fim, o que é a uaubesidade mórbida? Bem, de forma simplista, é a crescente necessidade de validação e bajulação que as pessoas podem levar a extremos, quando abusam do consumo de redes sociais.

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Nada de novo, ao fim ao cabo é só uma tendência que já se tem vindo a desenvolver há algum tempo e que as próprias ferramentas estimulam, com pequenos truques e nuances marotas e que as pessoas papam como quem olha para um bombom sozinho numa caixa e diz ‘Bem, só um não faz mal’, apagando da sua memória que só está lá um porque acabaram de comer uma caixa inteira.

Como é que se manifesta? Entre muitas outras formas, levando o conceito de ‘aniversário’ ao nível micro: as pessoas celebram e partilham o 111º dia na vida do seu cão e os aniversários dos bebés, passaram a mesário, a caminho de semanários e ainda nem falámos na efeméride do nascimento de cada um dos seus dentinhos. Mas isto é só o início…

É que a precisão de dados e a demência de festejos andam de mãos dadas, celebram-se aniversários de amizade virtual, dias internacionais de tudo e um par de botas, até já há dias com o nosso nome, só porque sim e gera conteúdo. Podemos ainda comemorar quando aderimos à rede X, quando publicámos o post 1000 ou o milésimo like em fotos com gatinhos. Comemora-se tudo o que seja uau e o problema é que tudo é uau, porque não custa nada mandar para o ar.

Provavelmente, não é mais do que um sinal dos tempos, da evolução (ou redução) das consciências. Da mesma maneira que somos levados a (re)pensar o que é a esfera do privado e do público, algo que varia de pessoa para pessoa, também a ‘pressão invisível’ de gerar conteúdos se manifesta de muitas formas.

O sentimento de pertença é algo ligado à dinâmica humana na vida em sociedade e o facto é que quando a sociedade muda e evolui nos mais diversos campos, também os mecanismos de adaptação evoluem. No geral, as pessoas gostam de que gostem delas, o reconhecimento, ainda que superficial é agora mais fácil e se na prática às vezes é difícil encontrar 10 amigos a sério, na piscina morninha das redes sociais, temos às centenas e totalmente ligados ao que entendemos por bem partilhar. Uma vida uau, mesmo que etérea e inconsciente, não é nada de se deitar fora nesses moldes.

A uaubesidade mórbida, se bem que uma questão mais de bom senso e critério entre adultos, possivelmente só começará a ter efeitos realmente investigáveis nas gerações que já crescem com uma vida digital antes de se darem conta da mesma, que coabitam desde o berço com dispositivos que deixam tudo mais próximo através do paradoxo de o fazerem à distância e que, desde as primeiras fases da sua construção de personalidade, vão conviver uma noção muito diferente do que é pessoal/partilhável/público e do que é reconhecimento válido vs celebração superficial. A forma de pensar (já é) será diferente, os conflitos de gerações terão outros temas e o certo vs errado será jogado noutros campos.

Até lá, vamos de uau em uau até à loucura finau.

 

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