Silêncio (dos não inocentes)

Nos últimos tempos não tenho ido muito ao cinema – chamemos-lhe ‘cláusula de parentalidade’. No entanto, sempre que a oportunidade surge, nada como visitar o grande ecrã e, não havendo nada que me surgisse logo como primeira escolha, fui pela opção segura, ‘Silêncio’ do Scorsese (que ironicamente bateu ‘La la Land’ no desempate final).

silence2016__article-hero-1130x430.jpg

Não era um filme que quisesse ir ver particularmente ao cinema, não por desdenhar da matéria, mas porque já sabia que era longo, a acção não faria realçar a escolha pela ida ao cinema e porque me faria pensar em várias nuances filosóficas e não só. Para esse tipo de filmes, prefiro reservar um sofá.

Esta é a parte em que, caso não gostes de spoilers, vais dedicar-te a ver o estado do tempo em sites de metereologia.

Para mim, neste filme adaptado com muita calma por Scorsese a partir de um livro com o mesmo nome, mais do que o percurso do Padre Rodrigues (Andrew Garfield) ou do bonito que é ver Kylo Ren a espalhar a fé a partir de Portugal (se bem que Garupe é apelido português sui generis), interessava-me compreender um bocadinho mais o impulso/repulsa do período de expansão católica no Japão.

Obviamente, no plano histórico há muito mais para além do impulso jesuíta a promover a presença no Japão de estandartes lusitanos. Há o interesse comercial, há a defesa face à ‘invasão’ hispânica (que já dominava as Filipinas) numa zona do Tratado que devia ser ‘nossa’, mas na qual Holandeses já gravitavam com bastante influência na balança comercial.

Mas o capítulo da fé é curioso, mesmo a um nível de leigo como o meu, porque o conjunto de metáforas que os protagonistas japoneses usam para explicar o porquê da reversão da abertura inicial à expansão católica é mais do que o sinónimo do seu esforço para manter o xintoísmo inatacável. É o confronto entre duas formas de pensar, ocidental e oriental que, até hoje, muitas vezes funcionam melhor em paralelo do que cruzadas.

Apesar do filme se fixar na conversão/sobrevivência de várias populações de base, camponeses simples, pescadores, etc – naquela fase isso era apenas uma amostra do que restava. Pelo que li e sei, a política de conversão católica privilegiava muito mais senhores feudais, nobreza e altos cargos nipónicos por saber que a conversão do Senhor, facilitaria em muito a chegada aos seus servos. E, para além disso, criaria muito mais facilidade na construção de relações para além da base, a nível comercial/militar, etc, campo onde os holandeses já eram bem mais estabelecidos (numa fase em que o Japão se fechava ao comércio com nações estrangeiras, período que duraria até à ‘chegada’ do impulso americano).

Como será natural, quando a repressão aumentou, o topo cedeu muito mais facilmente que a base, sobrevivendo nas comunidades mais dispersas e nas zonas menos vigiadas do Japão. E porquê a persistência, quer de missionários, quer de populações submetidas a disciplina e perseguição muito grave?

Aqui avanço em pura especulação, até porque o filme retrata o esforço dos dois padres portugueses como uma demanda espiritual na busca do seu mentor, mais do que um investimento da Igreja numa causa que já considerava perdida (e com muita porradinha religiosa da boa a acontecer na Europa, em vários cantos, separando vários ramos da igreja, etc).

Há uma questão, levantada por um personagem que encara um tradutor português-japonês por altura do cativeiro do padre Rodrigues: ‘Será que os padres sabiam, no seu parco japonês, o que estavam a professar às populações? Será que a compreensão das populações do que é o Catolicismo, não estaria muito deturpada da realidade da mesma?’ O papel do pescador-traidor parece indicar essa tal confusão, já que o mesmo procura sucessivamente a absolvição, apenas para fraquejar novamente de forma grave e continuar a alimentar esse círculo. É claro que isso não serve como desculpa para qualquer tipo de perseguição-repressão religiosa, mas o Japão estava longe de ser uma nação igual à maior parte das que já tinham sido alvo do trabalho de missionários.

O filme pretende, de certa forma, elogiar o trabalho, dedicação e devoção dos jesuítas portugueses num país que, na época que atravessava, lhes colocou pela frente as maiores provações. Mas, será que estes tiveram alguma vez a noção da cultura em que se envolviam e da forma como a sua presença iria impactar a vida de tanta gente, sem qualquer previsão do seu destino?

Creio que não e, não entrando também na parte do complexo de Messias que os japoneses várias vezes referem, a minha dúvida maior depois de ver o filme e ir pesquisar mais alguma coisa sobre o assunto – Será que aqueles que adoptaram a fé católica no Japão compreendiam as nuances da mesma ou, a cultura e a difícil compreensão (a par das barreiras linguística) não terão levado a que o catolicismo japonês fosse um derivado que ganhava fãs pela perspectiva (deturpada?) que, mesmo perseguido, mais valia morrer católico rapidamente, do que levar uma vida inteira de dureza e opressão através do binómio religião-estado japonês, entre várias outras concepções paralelas. O filme tem vários pormenores que me parecem demonstrar que havia uma compreensão lata e que o esforço de integração de conceitos como ‘confissão’, ‘paraíso’, ‘absolvição’, ‘baptismo’ poderá ter sido bastante simplificado para contrapor/expor a fé católica face ao budismo japonês. A própria renúncia à fé é, muitas vezes, simbolizada por um acto quase ‘legal’ de pisar uma imagem, que pouco quereria dizer em termos de manutenção da fé.

O que é que isto implica? Ficar um pouco na dúvida sobre tudo isto, sobre os cabelos resistentemente sedosos do Padre Rodrigues, sobre se o Liam Neeson era mesmo necessário para 15 minutos de ar aterrorizado vs resignado e sobre se o filme tem a força para um toca e foge numa epopeia tão complexa como aquela a que São Francisco Xavier deu início.

Sobra a certeza de um excelente casting ao nível de actores japoneses e sobre uma fotografia e sonoplastia de grande categoria, a dar uma visão interessante sobre o Japão desconhecido do séc.XVII.

 

Anúncios

Bovino

O computador, telemóvel, tablet, seja lá o que for, devia disparar uma selfie automática quando descobrimos que há um ficheiro que acaba de nos tramar a vida ou o sistema gera um erro que nos deixa de quatro a carregar em botões com ar bovino.

Quando um dia conseguíssemos rir dessa foto, era sinal que o trauma já estava superado.

Agora vou continuar a ruminar a olhar para um Word que se transformou num Without Words em questão de segundos.

Lama

Andamos tantas vezes presos ao lamaçal do quotidiano que nos esquecemos da boa e velha diversão que é brincar com lama no Inverno, sem preocupação de limpeza, regras de conduta e afins. É que oiço marcas como a Skip a dizer aos pais que é bom que as crianças se sujem, mas ninguém se preocupa muito com esta vertente para os adultos, aos quais muitas vezes faz falta um momento de lavagem da alma com recurso, por exemplo, a 28kms de lama.

Ontem lembrei-me disto, enquanto patinava ao mais alto nível por uma descida fora, no meio de um lamaçal de um trail super divertido (nem que seja porque não fui provar a lama com a boca) a apenas 30 minutos de Lisboa. E, no fim de tudo, enquanto demorava 20 minutos só a tirar o equipamento, posso dizer que cada centímetro valeu a pena.

 

 

Quando a fé vive por debaixo de um clube de snooker.

Os caminhos do Senhor, embora muitas vezes insondáveis, noutros casos vão dar a clubes de snooker no 2º andar de prédios. Vejamos a parábola da ‘Fé no Quiz’:

Sexta feira fui experimentar um formato novo de quiz que, calhou bem, teria lugar num clube de snooker que fica a dez minutos a pé de minha casa. Lá fui eu cheio de fé e isso deve ter-se sentido no ar.

Ao chegar à porta do prédio, um senhor de alguma idade vai a entrar à minha frente. Pensei logo: ‘Um veterano…deve ser forte a História, Geografia, porventura alguma Música Clássica e…’

‘O amigo é da Igreja?’ – o velhote sorriu para mim e, com essa entrada, quebrou-me logo o pensamento.
‘Eehhhrr…Não…’
‘Mas vai ser!’ Disse ele, lançando-se aos primeiro degraus sem perder o sorriso.
‘Pois…nunca se sabe’ – Sérgio usa a famosa táctica de conversa mole altamente vaga.

Estamos no primeiro andar, eu pretendo ir para o segundo, velhote evangelizador bloqueia-me no patamar.

‘Então, já está perto e tudo’ Sorri novamente e, como que por magia, abre-se uma porta e lá dentro, resplandecente, o Arcanjo Gabriel toca uma trompeta.
Mentira, foi só um negão, para aí com 1,90m que abriu a porta e tinha o telemóvel a tocar com um mambo qualquer.
‘Talvez ao descer, que eu agora tenho de subir’ – Com uma boa finta de corpo escapei-me a um possível abraço fraternal e lá fui eu escada acima, rumo ao clube de snooker.

Ainda ouvi uma voz a dizer lá atrás ‘É quando as pessoas vão descer que nos procuram mais…’ Juro que se tivesse olhado, ele estaria a sorrir, agora na companhia do Arcanjo Negão.

Posso dizer que o resto do serão foi agitado, o primeiro quiz correu uma bosta, os gajos do clube de snooker puseram-nos for a sob falsos pretextos e não posso negar que, ao descer as escadas não pensei que a porta da fé não se fosse abrir e não estivesse lá o velhote de braços estendidos. Tal não aconteceu, e a segunda parte do quiz, improvisada numa esplanada ali perto, correu lindamente.

Moral da história: Não reneguem a fé no primeiro andar, quando no prédio têm outros assuntos a tratar.

Unhas de gel, o filme

Tenho em mim a ideia cavernosa e, ao mesmo tempo, sedutora de que as unhas de gel são mais frequentes em senhoras que gostam de filmes de terror que metem vampiros e lobisomens, em que muitas vezes as protagonistas femininas têm verdadeiras armas brancas ao seu serviço. Uma situação em que a unha é mais um statement de ferocidade do que propriamente um auxiliar de ‘beleza’.

Contudo, ainda nunca tive coragem para discutir com a senhora da Well’s a que vou, com a menina da recepção do consultório da médica do meu puto ou com aquela colega que chega sempre a uma sala cerca de um segundo depois das suas unhas, se preferem o Drácula do Gary Oldman ou se a versão dos ‘Underworlds’ da Kate Beckinsale é mais apelativa. Se naquela odisseia de esferovita do Twilight é o Lobinho Mau Fofo ou o Cara Pálida que bebe batidos de sangue que puxa mais forte. Ou se o Willem Defoe, naquele filme de referência ao universo Murnau, não tem comparação com um Benicio del Toro empalhado num risível filme de lobisomens.

E, enquanto elas tamborilam de forma perfeita nas mesas e bancadas à sua frente, a falhar continua a ser minha, que nem sequer a piada das mulheres com garra arrisco.

O maravilhoso mundo das apostas do Superbowl

É perfeitamente legítimo que se estejam a borrifar para a final do futebol americano, Patriots vs Falcons, para o mundo alucinante dos anúncios publicitários que vão fazer as delícias nos seus intervalos e para o dinheiro que um evento destes gera. O que já não é tão legítimo que ignorem é o maravilhoso mundo das apostas absurdas que se fazem à volta do Superbowl.

Por exemplo:

Quantas vezes irá Giselle Bundchen aparecer durante a transmissão televisiva do jogo? (ela é casada com o Tom Brady, quarterback dos Patriots)

1027-tom-gisele-instagram-3(calma Tom, a probabilidade segundo Las Vegas aponta para 1,5)

Quanto tempo vai demorar Luke Bryan a cantar o hino americano?

(as apostas são: acima ou abaixo de dois minutos e 19. Para não fãs de música country, 10 segundos seria bonito)

A seguinte frase será utilizada pelos comentadores? (a final é em Houston)

(O sim lidera as probabilidades, mesmo que Tom Hanks não apareça)

De que cor será o líquido despejado na cabeça do treinador vencedor?

bill-belichick-gatorade-620x400

(Bill Belichick, treinador dos Patriots já venceu por seis vezes, pelo que já tem uma bela paleta na cabeça ao longo dos tempos. Ainda assim, entre as cores favoritas, roxo é a menos provável, com 12/1)

Durante a sua actuação ao intervalo, de que cor será o cabelo de Lady Gaga?

062111-gaga-lead-340

(Embora ‘ridículo’ não seja uma cor, consta que a base da aposta é entre ‘loira’ – a 1/4 ou ‘outra cor’ 5/2)

 

Caso queiram saber mais coisas sobre apostas estranhas do Superbowl e outras não tão estranhas, experimentem passar por aqui ou por acolá.