Silêncio (dos não inocentes)

Nos últimos tempos não tenho ido muito ao cinema – chamemos-lhe ‘cláusula de parentalidade’. No entanto, sempre que a oportunidade surge, nada como visitar o grande ecrã e, não havendo nada que me surgisse logo como primeira escolha, fui pela opção segura, ‘Silêncio’ do Scorsese (que ironicamente bateu ‘La la Land’ no desempate final).

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Não era um filme que quisesse ir ver particularmente ao cinema, não por desdenhar da matéria, mas porque já sabia que era longo, a acção não faria realçar a escolha pela ida ao cinema e porque me faria pensar em várias nuances filosóficas e não só. Para esse tipo de filmes, prefiro reservar um sofá.

Esta é a parte em que, caso não gostes de spoilers, vais dedicar-te a ver o estado do tempo em sites de metereologia.

Para mim, neste filme adaptado com muita calma por Scorsese a partir de um livro com o mesmo nome, mais do que o percurso do Padre Rodrigues (Andrew Garfield) ou do bonito que é ver Kylo Ren a espalhar a fé a partir de Portugal (se bem que Garupe é apelido português sui generis), interessava-me compreender um bocadinho mais o impulso/repulsa do período de expansão católica no Japão.

Obviamente, no plano histórico há muito mais para além do impulso jesuíta a promover a presença no Japão de estandartes lusitanos. Há o interesse comercial, há a defesa face à ‘invasão’ hispânica (que já dominava as Filipinas) numa zona do Tratado que devia ser ‘nossa’, mas na qual Holandeses já gravitavam com bastante influência na balança comercial.

Mas o capítulo da fé é curioso, mesmo a um nível de leigo como o meu, porque o conjunto de metáforas que os protagonistas japoneses usam para explicar o porquê da reversão da abertura inicial à expansão católica é mais do que o sinónimo do seu esforço para manter o xintoísmo inatacável. É o confronto entre duas formas de pensar, ocidental e oriental que, até hoje, muitas vezes funcionam melhor em paralelo do que cruzadas.

Apesar do filme se fixar na conversão/sobrevivência de várias populações de base, camponeses simples, pescadores, etc – naquela fase isso era apenas uma amostra do que restava. Pelo que li e sei, a política de conversão católica privilegiava muito mais senhores feudais, nobreza e altos cargos nipónicos por saber que a conversão do Senhor, facilitaria em muito a chegada aos seus servos. E, para além disso, criaria muito mais facilidade na construção de relações para além da base, a nível comercial/militar, etc, campo onde os holandeses já eram bem mais estabelecidos (numa fase em que o Japão se fechava ao comércio com nações estrangeiras, período que duraria até à ‘chegada’ do impulso americano).

Como será natural, quando a repressão aumentou, o topo cedeu muito mais facilmente que a base, sobrevivendo nas comunidades mais dispersas e nas zonas menos vigiadas do Japão. E porquê a persistência, quer de missionários, quer de populações submetidas a disciplina e perseguição muito grave?

Aqui avanço em pura especulação, até porque o filme retrata o esforço dos dois padres portugueses como uma demanda espiritual na busca do seu mentor, mais do que um investimento da Igreja numa causa que já considerava perdida (e com muita porradinha religiosa da boa a acontecer na Europa, em vários cantos, separando vários ramos da igreja, etc).

Há uma questão, levantada por um personagem que encara um tradutor português-japonês por altura do cativeiro do padre Rodrigues: ‘Será que os padres sabiam, no seu parco japonês, o que estavam a professar às populações? Será que a compreensão das populações do que é o Catolicismo, não estaria muito deturpada da realidade da mesma?’ O papel do pescador-traidor parece indicar essa tal confusão, já que o mesmo procura sucessivamente a absolvição, apenas para fraquejar novamente de forma grave e continuar a alimentar esse círculo. É claro que isso não serve como desculpa para qualquer tipo de perseguição-repressão religiosa, mas o Japão estava longe de ser uma nação igual à maior parte das que já tinham sido alvo do trabalho de missionários.

O filme pretende, de certa forma, elogiar o trabalho, dedicação e devoção dos jesuítas portugueses num país que, na época que atravessava, lhes colocou pela frente as maiores provações. Mas, será que estes tiveram alguma vez a noção da cultura em que se envolviam e da forma como a sua presença iria impactar a vida de tanta gente, sem qualquer previsão do seu destino?

Creio que não e, não entrando também na parte do complexo de Messias que os japoneses várias vezes referem, a minha dúvida maior depois de ver o filme e ir pesquisar mais alguma coisa sobre o assunto – Será que aqueles que adoptaram a fé católica no Japão compreendiam as nuances da mesma ou, a cultura e a difícil compreensão (a par das barreiras linguística) não terão levado a que o catolicismo japonês fosse um derivado que ganhava fãs pela perspectiva (deturpada?) que, mesmo perseguido, mais valia morrer católico rapidamente, do que levar uma vida inteira de dureza e opressão através do binómio religião-estado japonês, entre várias outras concepções paralelas. O filme tem vários pormenores que me parecem demonstrar que havia uma compreensão lata e que o esforço de integração de conceitos como ‘confissão’, ‘paraíso’, ‘absolvição’, ‘baptismo’ poderá ter sido bastante simplificado para contrapor/expor a fé católica face ao budismo japonês. A própria renúncia à fé é, muitas vezes, simbolizada por um acto quase ‘legal’ de pisar uma imagem, que pouco quereria dizer em termos de manutenção da fé.

O que é que isto implica? Ficar um pouco na dúvida sobre tudo isto, sobre os cabelos resistentemente sedosos do Padre Rodrigues, sobre se o Liam Neeson era mesmo necessário para 15 minutos de ar aterrorizado vs resignado e sobre se o filme tem a força para um toca e foge numa epopeia tão complexa como aquela a que São Francisco Xavier deu início.

Sobra a certeza de um excelente casting ao nível de actores japoneses e sobre uma fotografia e sonoplastia de grande categoria, a dar uma visão interessante sobre o Japão desconhecido do séc.XVII.

 

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