Ontem fiz a minha primeira ultra e acabei em último. Não podia ter ficado mais satisfeito.

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Era para ter ido fazer 50kms ao Piódão, não foi possível. Uma semana depois vinguei-me numa prova muito especial ‘A Ultra do Teimoso em Monsanto’, uma prova que acontece só porque sim. E porque a história já precisava de uma página assim

O facto é que quando jogava basket comecei a correr como complemento, fiz umas provas e gostei. Conforme o gosto por correr foi evoluindo, tentei conciliar o melhor possível com o basket, agora já no nível fun do campeonato do Inatel. Fiz maratonas, umas gostei mais do que outras, mas continuei, até porque entretanto descobri e fiquei fascinado pela variante de trail.

Há perto de dois anos, com o primeiro filho no horizonte, fui experimentar uma coisa chamada ‘A Hora do Esquilo’ em Monsanto. A hora é ‘convidativa’ (acordar às 5 e pouco, para correr das 6 às 7), mas a minha guia vendeu-me bem a coisa e na verdade o primeiro treino foi logo para recordar, já que fomos parar à Margem Sul, chegámos atrasados e acabámos a fazer um percurso em que ela serviu de guia turístico a solo.

Gostei e voltei, essencialmente porque o espírito do grupo é uma categoria e a presença de gente que sabe muito, faz muito e corre muito é sempre inspiradora e desafiadora no bom sentido, ou seja, quem lá está inspira-nos a evoluir e a não nos sentirmos mal por não estarmos (nem se calhar alguma vez virmos a estar) ao seu nível.

Quando o meu filho nasceu, tive que fazer uma escolha difícil – basket ou corrida/trail. Sei que no mundo ideal essas escolhas não existem, mas a logística profissional e familiar assim o exigiam, pois manter os dois desportos obrigaria a cortar em campos onde tal não faz sentido face a hobbies, por mais importantes que eles sejam. Pagou o basket, no sentido do praticante, porque senti que depois de 25 anos a jogar, tinha mais margem para evoluir na corrida e a flexibilidade de horários tornavam-na uma escolha mais funcional. Ficou a modalidade do coração em suspenso na versão observador.

Ao longo destes dois anos tenho conhecido muito boa gente, com histórias inspiradoras nos trilhos e fora deles, tenho feito provas divertidas, tenho madrugado muito e, com ajuda da senhora da casa, que junta à maratona que já fez a capacidade de sofrimento de ‘quase não ouvir’ o alarme que toca regularmente às 5.15 da matina, garantir que a mini-tropa permanece orientada.

Para mim, o grande fascínio do trail, para além dos cenários que nos permite ir conhecendo e dos amigos que vamos fazendo é que, mesmo em prova, o corredor comum corre apenas contra si próprio, ou melhor, enfrenta apenas a sua vontade de se superar. É claro que treino regularmente com gente que tem aspirações (e capacidades) mais elevadas, mas também sempre aprendi que é a treinar com gente melhor que se evolui e portanto os objectivos deles servem, indirectamente, os meus. E sim, também conheço outras pessoas ‘comuns’ que já avançaram para patamares mais altos e feitos mais épicos, mas isso nunca me perturbou. Sempre fui muito competitivo mas, no mato, sinto-me tranquilo comigo mesmo, porque sei balancear entre a fase da minha vida em que estou, aquilo a que posso aspirar e estou disposto a dar.

Tudo muito bonito, sim senhor, para as pessoas normais hei-de continuar sempre a ser um maluco que se levanta de madrugada para ir correr, paga para entrar em provas e, com sorte, acaba no primeiro terço da tabela. Mandem vir, eu aguento.

Só que tinha aqui uma coisa a remoer-me o espírito e com um novo capítulo a aproximar-se queria tirar já isso do horizonte – fazer uma ultra-maratona. Já fiz provas com algum desnível no mato, já fiz até maratonas estilo trail, mas faltava-me uma ultra (+ de 42kms). Não por objectivo louco, mas por teste e porque sim (óptima razão para tudo) – Apesar do treino estar uns furos abaixo do que devia, era suposto ter ido ao Piódão enfardar 50kms de sobe e desce na serra. A logística familiar não foi favorável e isso não aconteceu.

Dado um novo conjunto de olímpiadas que se aproxima para o resto do ano (para não falar no escalão +40 anos), o timing era escasso. Teve que ser improvisado e à porta de casa, mas não houve dúvidas que ia acontecer. Então veio domingo e saí de casa por volta das 6 da manhã, rumei a Monsanto para ver o nascer do sol junto à prisão e depois foi seguir por ali em diante. Vasculhar quase todos os cantinhos do local onde tantas vezes treino, manter o ritmo tranquilo e contar com ajuda de um amigo para os 18kms finais. E faz toda a diferença ver que há amigos que acreditam em maluqueiras tanto como nós e até fazem de abastecimento improvisado com água e frutos secos à discrição.

O final foi durinho, por causa do calor, mas fez-se o que havia a fazer e, passados os 45kms, a decisão dos 50kms foi fácil de adiar – ficam guardados para o ano, no Piódão. Na meta, no Parque do Penedo não havia medalhas, nem tshirt, havia apenas o regresso ao local onde tudo começou. Há novos capítulos para escrever, mas este fez todo o sentido que acabasse desta forma, comigo em último lugar mas, ao mesmo tempo, em primeiro. Porque no final das provas, independentemente do que diga o chip, a verdade é que as coisas são sempre assim.

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