O encantador de SMS

Parte do meu trabalho é escrever, grande parte do meu gozo é escrever, tanto que às vezes dou por mim inadvertidamente a monitorizar mensagens alheias que por acaso do destino aparecem à minha frente em transportes públicos.

Antes de pedir desculpa mentalmente e voltar ao que se pode chamar a minha vida, quantas vezes não dou por mim a sugerir, também mentalmente, uma mudança de tom na resposta, a substituição de uma palavra que escrita tem outro cunho do que quando dita ou até a sugestão de um emoji bem mais impressionante.

A vida dos outros é sempre um enredo bem mais claro do que quando se trata da nossa.

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Polidiota

O que é mais frustrante?

Precisares de falar com uma pessoa que não fala a mesma língua que tu mas, por mais que fales e te esforces, ela pura e simplesmente não compreende.

Precisares de falar com uma pessoa que fala a mesma língua que tu e, por mais que fales e te esforces, ela pura e simplesmente não compreende.

Na primeira, o critério geográfico pode aumentar exponencialmente a frustração, mas a esperança pode sobreviver através da linguagem gestual e afins. Na segunda, o critério da proximidade pode não servir de nada, mas a esperança pode sobreviver graças à (tola) expectativa de que o facto de haver compreensão do idioma poderá eventualmente ajudar a uma futura compreensão do contexto, nem que seja através de gritos.

 

Causas nobres, gases nobres

O mundo digital indigna-se agora com um peido. Um peido em causa solidária, acrescente-se. Da minha parte, não me choca, mas eu também sou um reles cínico que é capaz de se rir vezes sem conta da miséria alheia. Não me chocam os indignados, porque ir às redes sociais sem te indignares com nada é como ires ao ginásio só para passear entre as máquinas. Não me choca a frase, pela sua aplicação no contexto pelo seu autor.

Escatologia e os seus efeitos é debate que já dura há largos séculos, com presenças nas mais diversas obras. Um caso ‘bonito’ é a odisseia de Gargantua e Pantagruel, dois gigantes em cujas aventuras nunca faltou, literalmente, muita merda. Podíamos questionar se Rabelais não tinha outro recurso para engrandecer ou enquadrar os seus personagens. Mas a questão é essa, Rabelais não utilizava a escatologia de forma gratuita, usava-a para definir determinada estética na qual a sua narrativa se inseria.

Independentemente de gostar ou não do Salvador, a frase dele não foi gratuita, nem foi humor barato. Foi um enquadramento entre a visão dele e as expectativas das pessoas, dizendo a verdade sem filtros. Falar sem pensar não tem que ser sempre um acto negativo.

Redes anti-sociais 

O ataque informático de ontem forçou-nos a desligar os computadores da empresa e isso gerou algo muito bonito.
As pessoas foram ‘obrigadas’ a largar os computadores, a conversar umas com as outras e a trocar ideias ao vivo. 

E isso só veio provar o quão mais interessantes são as pessoas quando só temos que lidar com elas através das redes sociais.

Eu, o não poeta

Tenho com a poesia uma relação difícil.

Reconheço nela todas as virtudes da escrita, admiro a arte daqueles que nela bem navegam mas, até ver, consumo-a sempre em pequenas doses racionadas, como que a evitar um possível enjoo que nunca acontece.

Gosto dos jogos de palavras e sentidos, das narrativas não-lineares, da construção rítmica e traçado por vez ausente, mas depois fujo dela por não me oferecer aquilo que me cativa na prosa, mesmo que às vezes não consiga bem explicar o que é. Gostos, aquele escudo universal que diz tudo não dizendo nada.

E isto trata-se, é claro, da perspectiva enquanto consumidor. Enquanto produtor de linhas e letras coordenadas para sugerir algum sentido, sinto-me sempre um urso a barrar-se de mel antes de ir visitar abelhas quando arrisco algo com essa estrutura. Não é o meu campo, a minha batalha e posso ter as armas que os outros usam, mas não saberia dizer como se usam ou usá-las para delas tirar proveito. Linguagem poética, pela sua abrangência pode ser muita coisa, mas poesia é uma porta bem definida nesse edifício e só lá deve entrar quem não pretenda fugir à procura da saída.

Como tal, esqueçam futuros sonetos, a pesca aqui é outra. Agora só é preciso ir comprar uma cana.

Sofres de profissionalismo? You should have know better

Em boa parte, o profissionalismo é como a taxa de álcool no sangue: distrais-te um bocadinho a pensar nas coisas e passas dos limites para a média aceite como ‘normal’. Depois, obviamente, pagas por isso.

Portanto, para além de (mais) uma referência a clássicos da música de mofo dos anos 80, a verdade é que já trabalho há anos suficientes para não cair nestas armadilhas, mas tenho um problema, há uma percentagem de gozo naquilo que faço que não me permite muitas vezes ficar pelo meia bola e força, mesmo sabendo que posso estar a remar em vão.

Resumindo, duas ou três horas de domingo ou noite a fazer guiões com diálogos entre a personificação do futuro e pessoas interessadas em saber onde vão estar daqui a um mês. Uma bela alucinação, mas garanto-vos que dentro do esquema geral das coisas faz sentido. Faz não, fazia, porque cheguei segunda de manhã ao meu local de trabalho para saber que tudo aquilo que tinha estado a desenvolver foi parar ao futuro do caixote do lixo mais próximo.

Faz parte do jogo, mas pronto, chateia-me que os porcos nunca se fartem de pedir pérolas, mas depois prefiram banhos de lama para passar o tempo. Posto o desabafo, vou agora fazer uma aula de relaxing maracas, nova modalidade muito em voga em ginásios ficcionais.

Moisés e os Mandamentos de Pearl Jam

Ok, não é bem Moisés, mas é um David Letterman em modo profeta retirado a fazer a intro dos Pearl Jam no Rock n’Roll Hall of Fame. São 15 minutos, mas é interessante ouvir a evolução da história, quer da banda quer da relação de Letterman com eles, até ao muito sensível e tocante pormenor de Eddie Vedder e a guitarra oferecida ao filho de Letterman. Ah e tem algumas piadas interessantes.

Ainda a recuperar do rescaldo do final dos Sopranos, deixo lá mais para o fim da semana um revisitar do papel dos Pearl Jam na minha geração e o consumo de música nos dias de hoje.