Visionários portugueses I: Avô Cantigas

Inauguro hoje, com grande pompa e alguma circunstância, um segmento dedicado aos verdadeiros génios portugueses. Dado o tema, é possível que seja um segmento curto e escasso, mas não há aqui espaço para empreendedores pós modernos, artistas pseudo-visionários e cientistas de pensamento revolucionário. Aqui, o pódio é para quem olhou para onde os outros não estavam a olhar, para quem roubou o bebé e foi elogiado por isso ou para quem aproveitou o que outros faziam bem e foi fazer melhor.

E haverá alguém melhor para estrear o segmento do que o homem que, ainda a meia idade batia ao longe, já fazia de velhinho para animar a pequenada? Do cantautor (isto é um blog moderno, temos que manter alguma quota de expressões burguesas) que já dizia sem medos ‘todas as crianças são minhas amigas’, ainda a Internet e o Canal Panda eram ideias em desenvolvimento nos mais avançados grupos científicos?

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Sim, é claro, falo do Avô Cantigas.

Carlos Vidal não nasceu Avô Cantigas e o seu percurso tem o claro mérito de o manter relevante ao longo de tanto tempo. Se têm pouco tempo para prosa, podem sempre ir ver a entrevista dada à SIC em 2012, onde ficam a saber parte da história do personagem.

No entanto, vamos revisitar um passado para aí dos anos 70, em que é este o ritmo do avôzinho.

New Age, rock progressivo, olha ali o primo do Jerry Garcia dos Grateful Dead. Atenção que falamos de um álbum que tem os seus méritos musicais e há até investigação feita sobre o mesmo. Mas a questão é simples: sobreviveria ao tempo neste registo? Gerações de crianças superariam o trauma de não terem um avô rockeiro?

Não sei, mas também não estou cá para dar trabalho a psicólogos infantis. Para isso já chegam hordas de pais à procura de outro tipo de cantigas. Só estou cá para elogiar a genialidade do Avô Cantigas ao pensar da seguinte maneira:

Que público gosta de música alegre e jovial?

As crianças

Que mercado é quase eterno?

A nostalgia infantil

Que tipo de personagem agrada aos dois anteriores?

Um avôzinho

O resto é história que já aconteceu, com a grande vantagem de que o dress code de um avô pode descambar sempre numas jardineiras e camisas coloridas porque ninguém tem coragem de dizer ao avô que aquilo não é roupa que se apresente e pronto, se for rico é excêntrico, se for pobre é um remediado. Começar a fazer de velho enquanto se é novo é mais que um golpe de génio, é uma super aposta ganha,  porque adivinhem, se a coisa correr mal estavas disfarçado e tens escapatória, se correr bem, quando chegas a velho podes dispensar a peruca ridícula, concentrando-te na indumentária desse género e ostentando a velhice natural.

Carlos Vidal e o seu Avô Cantigas souberam adaptar-se desde o início e, tal como artistas estilo Madonna ou David Bowie (ombro a ombro com estes gigantes), oscilar entre os fãs desde o seu início e os filhos destes, respeitando gostos e tendências de novas gerações. Se boa parte da minha geração consegue cantar sem hesitar ‘Eu sou o Avô Cantigas…’ e por aí em diante, o cancioneiro infantil mais actual remete logo para a versão de ‘Doidas, doidas, doidas…’ ou o sempre dançável tecno de ‘Fantasminha Brincalhão’ (teremos aqui Vidal a preparar já o próximo passo no além?).

Entre originais seus e aquela bela mina comunitária que são as canções populares infantis, o Avô Cantigas continua a sacar novos truques da sua velha cartilha. Sejam vídeos modernos, com a sua presença ao vivo e a cores a reeditar clássicos, até animação 3D capaz de despertar o epiléptico nostálgico que há em nós, basta procurar online e não faltam hits deste artista imortal.

Fazer de velho desde novo não é para todos, conseguir sucesso a dar-nos música com isso é o seu legado perante gerações. Não acredito que tenha sido sempre assim, os períodos difíceis são a prova que o tempo lança a todos os artistas, especialmente a um preso para sempre numa cápsula do tempo. Creio que os novos canais para crianças e o advento de tablets e telemóveis a servir de entretenimento musical para a pequenada tenham feito a ponte entre gerações. Por isso, longa vida ao Avô Cantigas e ao Carlos Vidal, esperando que ele tire prazer do personagem e que não seja uma prisão-antítese ao estilo Rowan Atkinson-Mr.Bean. Da minha parte, pode continuar sempre a contar com o meu apoio e o tema seguinte faz parte do repertório que já partilhei com o meu filho mais velho.

Chateia-me só que, aos 2 anos, ele ainda prefira dizer por vezes ‘Lá vem o cocó do papá’, mas pronto aí a culpa não é do Avô Cantigas.

 

Nota: Em conversa sobre este assunto, vieram-me com a conversa da Xana Toc-Toc e de como tinham uma visão paralela. Meus amigos, Avô Cantigas é Zeus, Xana com sorte é uma daquelas mortais que ele gostava de seduzir para criar uns semi-deuses e cujo nome figura sempre em rodapé na história. O disfarce de hippie new-age flower power envelhece pior e já se começa a notar. Avó Xana também não me parece coisa para resultar…

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