No bless, no bleach e as expressões que o Diabo amassou

Não existe uma fórmula, nem sequer um índice para qualificar a extensão do problema, mas tenho a certeza que andamos a abusar de termos, expressões e acrónimos do ‘estrangeiro’ só porque sim. E isso, como comprova o episódio que vou relatar, é um giant leap para o nosso downfall.

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Trabalho numa área em que se chutam expressões ASAP e a latest trend é incorporada no vocabulário mais depressa do que vocês fazem like na página de influencers que seguem no Instagram. De certo modo, isso é inevitável, faz parte do storytelling e do point of view que se quer transmitir para garantir rapidamente o sucesso da mensagem ao nível de awareness, mesmo que ninguém a perceba. Mas pronto, se é um must da vida profissional então whatever.

O primeiro problema é que, não raras vezes, o efeito de dispersão dá-se por imitação e não por compreensão. Isto é, repito o que toda a gente diz, não porque saiba bem o que quer dizer, mas pelo facto de que se toda a gente diz, é melhor não ficar fora do pelotão.

A coisa agrava quando a expressão é mais complexa/não tão óbvia e a pessoa que a difunde não só não percebeu bem a sua aplicação como não hesita em usá-la como chavão, fazendo com que um diálogo tenha tudo para dar certo…

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Imaginemos este episódio:

Tenho um amigo (o chamado amigo-exemplo) que trabalha para uma pessoa que tem dificuldade em ser assertiva no caminho que os trabalhos que executa têm que tomar, escudando-se muitas vezes em jargão vago do ramo. Como estamos a falar de comunicação/design não há cálculos muito científicos que nos permitam tomar decisões 100% certas, há sim caminhos, estratégias, linhas que podemos defender para tentar materializar um conceito/campanha da forma que se julgue mais eficaz e diferenciadora.

Nesse campo, nada é pior do que comentários que dizem ‘Isso não está muito engaging’ ou ‘Experimenta aí uma cena mais out of the box’, certo?

Errado, existe o efeito ‘No bless, no bleach’.

Perante um determinado trabalho, cliente imponente, necessidade de peças com toque distintivo e com alguma classe, o amigo-exemplo não estava a acertar no que a chefia queria. Conceitos chumbados, execuções a bater na trave e a justificação era sempre – ‘Não podemos vacilar, este é um cliente no bless, no bleach’.

Obviamente, aquela expressão não lhe fazia sentido nenhum mas o amigo-exemplo, habituado a pressure points do género, não questionou, percebeu que não era por ali e foi tentando acertar na million dollar question. Até que um dia, enésima proposta chumbada internamente ao abrigo do critério no bless, no bleach e saltou-lhe a tampa: ‘Ouve lá, o que é que essa merda quer dizer afinal, para ver se chegamos a alguma conclusão?’.

A explicação foi meio vaga, como são todas as que se baseiam em repetições mais por ouvir dizer do que em convicções próprias. Então, o cliente era nobre, premium, tinha uma certa exigência, as coisas tinham que ser clean, se aquilo não estivesse ao nível do que a situação exigia, não ia de certeza receber a benção do lado de lá.

Amigo-exemplo ficou em silêncio durante largos segundos, a tentar computar aquela chafurdeira em algo coerente. Até que se fez luz e, misto de raiva e estupefacção, só conseguiu dizer:

 

‘Fôdasse, NOBLESSE OBLIGE??? É de NOBLESSE OBLIGE que estamos a falar????’

 

‘Claro, No bless, no bleach. Não é assim tão difícil de perceber’.

Como a vontade de rir/chorar/cometer homicídio ao mesmo tempo é por vezes inibidora de qualquer acção, a reacção seguinte do amigo exemplo foi nula. Afinal de contas, é uma pessoa de bem e poupar os ignorantes é uma condição da sua nobreza…

Quanto ao trabalho, lá acabou por chegar a bom porto, good port como dizem os entendidos e os velhos ingleses que visitam as caves Sandeman.

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3 pensamentos sobre “No bless, no bleach e as expressões que o Diabo amassou

  1. Outro estrangeirismo que tende a complicar a ideia daquilo que se quer dizer e fazer passar para outrem é “demodé” que , por si, tende a elevar o nível da situação, quando o que se queria dizer era exactamente fora de moda ou antiquado.

Tens a certeza disso que dizes?

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