Ouro dos tolos, quem o não tem?

Quando estou em modo relax, um clássico que me deixa a navegar de olhos fechados é este:

Não sou um devoto de Stone Roses, mas têm faixas pelas quais tenho um carinho que sobrevive ao passar do tempo. Mas, sem entrar em debates musicais, a versão extensa desta música, deixa-me, sempre que me apetece, fazer um joguinho, brincando com o seu título.

Basta pôr-me a pensar em amigos, colegas ou pessoas com quem privo e tentar identificar qual será o seu ‘ouro dos tolos’, ou seja, aquilo que veneram/cobiçam/ambicionam/exibem, convencidos de que tem grande valor, quando na realidade vale cerca de zero, perante uma avaliação distanciada. Confesso que às vezes adormeço no processo, se a música estiver a tocar em condições propícias para esse efeito, o que é óptimo, é sinal que não estou de forma alguma a perder tempo.

E sim, todos temos o nosso ‘ouro dos tolos’, alguns em versão montanha, outros em versão montinho, mas ele anda por cá. Faz parte da nossa capacidade de auto-ilusão.

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A escrever com os pés

Se pouco tenho escrito por aqui, é porque tenho andado a escrever com os pés. Primeiro com os meus, correndo e andando por caminhos que conheço, atalhos que desconheço e voltas que dou para ter tempo para me encontrar comigo mesmo.
Depois, com os deles, pés pequeninos que correm sempre mais do que andam, que aceleram para travar e saltam para cair ou que, pura e simplesmente, ficam ali deitados, agitando-se, pedindo cócegas e soltando pequenas gargalhadas, as primeiras por sinal.

Não sai grande prosa, a que é escrita com os pés, mas enche-me de histórias para o caminho, e é isso que por vezes faz falta para que não me preocupe em saber para que lado vou – não é preciso chegar ao fim da estrada para ter histórias para contar, basta estar atento aos passos à nossa volta.

Regue-se o fogo do ódio no mundo com inteligência 

Já tinha visto a versão curta, ontem vi a versão longa. O que choca mais não é a violência (e esta já choca bastante), mas sim o ódio puro, estúpido e indefectível. No entanto, o que realmente preocupa não é este ódio, assumido, exibido cada vez mais com orgulho e pronto a sair à rua. É a evolução das estratégias e aproveitamento de canais e plataformas, quer digitais, quer de estruturas legais para promover, captar novos membros e criar acções que mediatizam os seus ideais e lhes dão margem de manobra. 

Como é aqui dito pelos próprios, eles sabem que são capazes de violência, mas estes movimentos nazis, supremacia ariana, etc, querem ir mais longe e o estado actual dos EUA favorece isso. Ao gerar manifestações, que se tornam em conflitos entre os que apoiam e os que rejeitam tais visões, o dano é sempre causado, porque multidões, aprendi eu em psicologia social, são unidades humanas de raciocínio primário. As emoções básicas dominam comportamentos e a violência, o pânico e Ira sobrepõem se à calma ou ao bom senso. E isso funciona a favor de quem não tem nada a perder.

Se eu for um neonazi, interessa me mostrar que fui agredido, que o meu racismo aberto é confrontado não por cidadãos comuns mas sim por movimentos que me são opostos. Isso ganha o apoio da opinião pública ou desculpabiliza o que quer que seja? Não, mas dá me ferramentas para angariar mais apoios, trabalhar nas zonas cinzentas, gerar mais simpatizantes, disseminar o ódios por novas vias. Sendo neonazi eu não me importo que pensem que sou uma besta, se ao mesmo tempo isso despertar outros para a minha causa. A justificação que um dos ‘protagonistas’ do vídeo sobre o atropelamento bárbaro que se dá é patética, mas simbólica – ele não quer absolver o condutor, basta lhe justificar parcialmente a sua acção como resposta. É idiota, mas é nessa base de processo que o ódio básico se propaga.

Como também se viu na miséria de Barcelona ontem, as regras do jogo de terrorismo e acções extremistas são cada vez mais de guerrilha e pequenas bolsas a causar o maior dano possível e chocante, passível de gerar mediatismo, sem preocupação pelo tipo de vítima.

Reagir a quente sem inteligência, na mesma moeda, entrando em confrontos, como por exemplo agredindo o promotor da manif nacionalista americana em frente aos media é dar mais gasolina a quem a vai usar para nos queimar.

Ser inteligente é fundamental, mesmo que isso implique não fazer o que daria vontade de fazer de imediato. E, mesmo assim, a luta estará ainda muito longe da sua conclusão.

Estaremos apenas a dar um passo para não a travar no campo que a gente estúpida prefere: o campo da estupidez básica e bruta.

E não devemos subestimar o poder de gente estúpida, porque se o cálculo fosse possível a sua % a nível mundial seria assustadora.

Qual a penitência adequada para quem fala ‘à bebé’?

‘Falar à bebé’ (isto é, reduzir a nossa capacidade mental ao ponto de falar de forma básica com voz fininha, voz de desenho animado e/ou dizer tudo muito devagar, com a boca e os olhos muito abertos, encharcadinhos em diminutivos) não é um flagelo ao nível da fome, mas é uma tragédia que passa ao lado da atenção que lhe é devida.

Antes de ter filhos considerava-me um Torquemada nesta matéria – se falavas à bebé, fogueira contigo e ficavas para sempre marcado na minha lista. Mas, com dois rebentos lá em casa, tudo a jogar nos sub-3 anos, fui obrigado a rever o código penal, com atenuantes e excepções, nas quais obviamente me incluo à bruta. Vejamos o enquadramento legal como ele ficou, actualmente:

Falar à bebé com bebés
Comecemos por afunilar a definição de ‘bebé’ – no meu livro, com uma laaaarga margem de tolerância, pode ir até aos 4-5 anos. Entrar com o filho na escola primária a falar-lhe assim é criar-lhe cicatrizes mentais piores que o bullying. Dentro do patamar previsto, é tolerável o acto em doses moderadas, tentando não falar mais à bebé que o próprio bebé. Em casos de exagero, seja em caso próprio ou de familiares e amigos, a recomendação são vergastadas com raminhos de oliveira, em acto de contrição.

‘Vou continuar a rir-me até ele se calar’

Falar à bebé com animais
Neste patamar, a tolerância é muito mais escassa, se boa parte dos animais de companhia atinge a idade adulta numa questão de meses, o mesmo devia acontecer com a nossa linguagem com eles. Em caso de ofensa repetida, recomenda-se o envio para uma jaula de leões famintos com bifes crus presos ao pescoço.

Falar à bebé entre membros de um casal
Situação extremamente perigosa, unicamente tolerada se os membros do casal estiverem a sós e sem ninguém por perto a distância audível. Nesse caso, se se querem tratar como bebés ou, simplesmente, vestir-se de bebé e receber miminhos, cada um sabe de si na intimidade. Em público, é deveras constrangedor e a penalização mínima é uma coleira eléctrica correctiva programada em intensidade média-alta. Se tiverem um perfil dividido nas redes sociais, muda para a potência máxima.

Falar à bebé com colegas de trabalho
A não ser que trabalhem num jardim de infância, despedimento com justa causa e obrigação de beber 2litros do ‘belo’ café de máquina de seguida. Se se descobrir que o colega com quem fala é na realidade a segunda metade de um casal oculto, aplica-se a coleira eléctrica na fila para a entrega dos papéis de desemprego.

Falar à bebé com extraterrestres/aparições/figuras mitológicas
Recomenda-se, caso se detectem casos destes, que as pessoas em causa sejam acarinhadas docilmente, um abraço é sempre bom, digam que as compreendem e que aceitam plenamente que elas estão a ver quem dizem que estão a ver. Depois é meter-lhe qualquer coisa numa bebida que as faça adormecer e chamar as autoridades competetentes. Se as pessoas em causa jurarem ter uma relação íntima com um ET, uma aparição ou um semi-deus, é tentar colocar a coleira eléctrica enquanto eles estão adormecidos.

Falar à bebé com objectos
Isto é só estúpido, não merece punição, apenas pena.

Em casos omissos neste excerto, por favor indiquem-nos para que se possa ter o devido enquadramento legal apropriado. Nem todas as pragas são controláveis, mas aqui o esforço de todos conta.

Metáfora sextafeiraveril

Certas pessoas trepam por sexta-feira acima com o entusiasmo de quem se vai mandar da prancha do segundo andar para a piscina. Sem verificar antes se a mesma tem água ou não.

Depois, é vê-los à segunda feira, a desbobinar em frente a um qualquer burro das lamentações*.

Já eu, prestes a gozar um período semi-zen, semi-vamosláadomardoisminicanalhas, prefiro fazer como os velhotes. Descer as escadas devagarinho e sentir pouco a pouco a temperatura da água a chegar-me aos sentidos. Depois é desfrutar da aclimatação.

 

 

 

 

*burro das lamentações – pessoa que, por norma à segunda feira, se deixa apanhar por alguém que só precisa de um corpo à frente para desbobinar e chorar-se de tudo o que lhe correu mal no fim de semana.

A propósito de mau perder

O post anterior poderá ter sugerido, de forma ‘ligeiramente’ exagerada, que não sei ganhar. Isso é falso, porque por saber como ganhar é que ninguém joga Monopólio comigo. Admito, no entanto, alguns excessos nas comemorações que levam à vitória final, mas toda a gente sabe que isso é perdoado aos grandes vencedores.

Contudo, a bem da coerência, sou também uma pessoa que, com o tempo, aprendeu a lidar com a derrota nas escassas vezes em que isso acontece. Por isso, este é um conjunto de situações extintas:

Nunca mais se verá uma criança enraivecida a atirar um baralho de cartas à mãe depois de um contestado jogo de bisca.

Nunca mais se verá um puto vítima de batota a usar uma pedra da calçada para repor a verdade na testa do canalha opositor.

Nunca mais se verá um treinador de basket a dizer a um adolescente que da próxima vez que se puser a gritar com os colegas de equipa o põe no banco, apenas para ver isso mesmo acontecer um minuto depois.

Nunca mais se verá um jovem adulto a cumprimentar todos os adversários depois de uma derrota numa final disputada de um torneio de basket e depois trepar para as bancadas, onde ficará uma hora a reviver tudo até conseguir voltar ao balneário acalmar-se com um duche de água fria.

Nunca mais se verá um universitário bater o recorde do mundo de insultos a um objecto inanimado, neste caso uma consola num torneio entre amigos fãs do futebol virtual.

Nunca mais se verá um adulto de barba rija a lançar olhares mortíferos a parceiros em tardes de lazer e jogos de tabuleiro, questionando a lógica e inteligência da sua estratégia.

E tudo isto nunca mais se verá porque um dia percebi que as minhas maiores vitórias surgiam quando me derrotava naquilo em que achava ser incapaz de corrigir.