Toda a gente odeia jogar Monopólio comigo

Há perto de 90 anos que o Monopólio faz ou fez parte da diversão de muitas famílias e grupos de amigos. Mas, se é divertimento light que procuram nesse jogo, estamos a falar de famílias e amigos parvos. O jogo é sobre arruinar os outros, enriquecendo pelo caminho e, nessa matéria e nesse quadradinho, poucos são crápulas tão bem sucedidos como eu. E ninguém gosta de lidar com isso durante umas horas.

1PRisão

A verdade é que vivemos num mundo em que os actores de método são louvados pelo seu trabalho a encarnar e viver personagens durante meses a fio se tal for necessário, sem quebrar o papel. Existem cenas e jogos fofinhos de role-playing, first person games em consolas, gente que adora cosplay e se veste como os seus personagens favoritos de ficção. É tudo bonito, a malta diverte-se imenso, mas chegas a um tabuleiro de Monopólio, encarnas um wannabe magnata do imobiliário com ligações à banca e poucos escrúpulos e a tua família e amigos viram-te as costas.

O primeiro factor que gera fricção tem que ver com o facto de muita gente ser incapaz de separar o jogo da realidade. Borrifei se a minha mãe não tem dinheiro para sair da prisão, se a minha irmã já não tem mais nada para hipotecar ou se a adorável mãe dos meus filhos acha que lhe estou a fazer a folha ao investir tudo em hotéis quando ela está prestes a entrar nos meu terrenos. Para mim, naquele quadrado não há relações para além das financeiras e imobiliárias. Queres contestar isso? Visita-me num dos meus resorts na zona verde e paga antes de debatermos o assunto.

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O segundo aspecto são ‘as regras’ – se vives num mundo real, sabes que as regras são uma batalha entre o que é e o que devia ser – não é por haver um livrinho com coisas numeradas que signifca que não existem inúmeras áreas cinzentas. Eu vivo nas entrelinhas, mais do que regras entendo a coisa como ‘linhas orientadoras’ e toda a gente sabe que boa parte das fortunas não se fizeram a respeitar sempre as regras. ‘Ah, é o que está nas regras’ é desculpa de gente sem imaginação, gente audaz diz ‘Ha ha, se não está nas regras dá para fazer’.

Terceiro aspecto –A moralidade de encher chouriços – não entendo porque há tanta gente que leva a mal quando gozo o prato de as estar a levar à falência, oferecer-lhes notas de 20 para pelo menos não dormirem na rua, ir buscar pão à cozinha para lhes levar à prisão ou criar ‘zonas de morte financeira’ em que só um milagre dos dados os salvará da miséria, enquanto finjo fazer voodoo aos dados. Meus amigos, o objectivo é a falência, não é a complacência e o sentido de justiça, se não gostas vai jogar Pictionary e desenhar ovelhinhas ou o conceito de tristeza.

 

Quarto factor – Confiança nos bancos – Vivemos num mundo em que a banca nos fornica de várias maneiras possíveis e impossíveis e ainda nos deixa a apanhar os cacos das suas brincadeiras. Mas não, vamos para o paraíso do Monopólio fingir que a banca cumpre com tudo e não falta com nada – se for eu a mandar, podem crer que não é assim. A banca é para desfalcar, fazer investimentos de risco, funcionar à margem da lei e brincar com a vida dos jogadores. Caso contrário, que ensinamentos estamos a dar às crianças e a adultos infantis?

E, por fim, a quinta cláusula – Se vais jogar comigo, não desistes, aprendes a perder mesmo que estejas o tempo todo a dizer que eu não sei ganhar. A cultura da desistência tem muitos adeptos, as pessoas não se comprometem com nada e, aos primeiros sinais de adversidade, amuam, dizem ‘Ah, já não quero’ e vão jogar Scrabble à procura de palavras de incentivo e auto-ajuda. Aqui não há nada disso, a desistência tem uma penalização financeira REAL, não do Monopólio (uma ‘jóia’ definida previamente), se estivermos a falar de crianças em vez de dinheiro aceito salvaguarda de brinquedos, tempo a ver desenhos animados ou bolachas. O conceito de bancarrota é para aprender de perto e eu não abdico disso.

O cenário é claro, poucos ainda se dispõem a jogar comigo e a verdade é que hoje em dia já é raro ter muito tempo para lições de vida num tabuleiro de Monopólio. Mas a verdade é que, de quando em vez, bate aquela saudade de despertar o agiota déspota empreiteiro que há em mim, cavar alicerces e sepulturas para os meus adversários nas mesmas propriedades, lançar as tiradas mais jocosas que abatem mais o alento adversário do que a Taxa de Luxo e ficar numa mesa a contar notas e olhares furiosos e não saber quais são mais numerosos.

Sou execrável a jogar Monopólio e só espero que o meu ar afável ainda consiga enganar alguns da próxima vez que aparecer com a caixinha na sala.

 

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6 pensamentos sobre “Toda a gente odeia jogar Monopólio comigo

  1. Supostamente a génese do jogo que inspirou o Monopólio foi criar uma ferramenta pedagógica que servisse para demonstrar que um sistema monopolista é cruel e injusto – portanto nada mais correcto que considerar-te o verdadeiro purista do jogo. 🙂

    Mas a grande tragédia – para mim – é que o Monopólio, como jogo, é mau. Assenta muito no factor sorte, não privilegia nenhuma estratégia minimamente complexa, e dá mau nome a todo o segmento de jogos de tabuleiro. De qualquer maneira, é óbvio que hei-de jogar Monopólio com os meus filhos, é importante que eles conheçam esse sentimento de serem esmagados sem complacência por um sistema de regras opressor e aleatório, e só assim perceberão a importância de lutar por um sistema que garanta o equilibrio da distribuição dos meios de produção e ponha fim à exploração do capital.

    No entanto, também nos deu isto https://www.youtube.com/watch?v=My31lwuhvko 🙂

    • Eu tento distinguir, de forma infantil, entre ‘jogos de sociedade’ e ‘board games a sério’ – os primeiros são para ocasiões lúdicas com crianças e adultos incautos, os segundos são para gente que gosta a sério de jogos. E, como dizes e bem, Monopólio é caca porque assenta na sorte dos dados – a verdadeira piada nas minhas versões alternativas é o volume e premissas de negociações entre jogadores, a hipóteses da banca ser uma banca de risco, fazendo empréstimos agiotas e ela própria funcionando como um jogador obscuro e ganancioso, em vez de ser um agente neutro que deixa crianças felizes a distribuir notas e casinhas. Mas é óbvio que as crianças devem passar por isso, perceber o conceito de injustiça financeira para valorizar a justiça e por aí em diante. à conta de coisas no género também tenho pensado um post sobre o conceito nhónhó de heróis, vilões e batota que há em muitos desenhos animados.

      Louis CK, sempre óptimo a trazer um pouco de luz negra ao mundo 😀

      • isto já não tem a ver com a tua versão “Monopólio -o Lobo de Av. Todi” , que me parece um spin-off bem mais interessante, 😀 mas o problema é que conheço muita pouca gente “que gosta a sério de jogos”, e os outros que poderiam gostar desenvolveram stress pos traumatico de ser esmagado por gordon gekkos como tu no Monopólio, e nem querem ver dados à frente. (mas não nego que nas listas a favor de ter filhos escrevi sempre “potenciais parceiros de jogos de tabuleiro”, portanto tenho esperança)

      • Eu tenho 2/3 amigos que são entusiastas ‘a sério’ de jogos de tabuleiro dignos desse nome. Curiosamente, ainda se falava isso lá em casa ontem, o advento da paternidade generalizada entre todos complicou o factor tempo necessário para um board gaming afternoon a sério. Quando (e se dá) a opção passa por jogos que sejam interessantes mas não impliquem estratégias e impasses de várias horas. Isto porque depois também há gajos (não me vou acusar) que abusam um pouco do tempo na sua vez de jogar 🙂 Mas sim, com o crescimento da prole aumenta a esperança de jovens parceiros de jogo. Já agora, tens algumas preferências/favoritos ao nível de jogos?

      • Nada de muito sofisticado. :} Tive uma fase de Catan, acho que foi o meu jogo ‘gateway’ para fora do mundo Monopólio / party games, incluindo expansões e cenas. Às tantas comprei um Risk 2210 AD, mais interessante que o original, mas com um tempo de setup de perto de 1 hora que arruma com qualquer “casual”. Também joguei Ticket to Ride algumas vezes, achei muito divertido. E houve algumas tentativas falhadas / alcoolizadas de jogos que já não me lembro bem, acho que um até era Star Wars. Que recomendas?

        Sinto ainda que tenho todo um mundo para descobrir, o que é até é bom. Agora, falando nisso, tu até és pessoa para te lembrar de um jogo que às tantas me ofereceram em puto, embora nunca o tenha conseguido jogar (não percebia as instruções) – fute boom? Era ligado ao México 86, creio.

      • Gosto bastante do Catan, embora o tenha descoberto mais tarde que boa parte da malta. Chateia-me, novamente, a ‘força’ dos dados. Por causa dos desenvolvimentos longos, setups complicados, etc, hoje em dia reduzo-me a coisas mais simples, mas com as suas nuances, sendo que tenho pouquíssimos, recorrendo ao cravanço quando há espaço – Na orla romanos e afins gosto do Colosseum (com drama de dados) e do Tribune. Acho que há que é o Pandemic, que é mais colaborativo tem a sua piada, Puerto Rico, um de piratas que não me recordo o nome e o 7Wonders também era porreiro.

        Em relação a esse jogo de futebol…não me ocorre nada, nessa altura ainda estava a aprender a passar a ferro sem danificar as linhas do terreno do meu ‘relvado’ de Subbuteo.

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