De volta ao ginásio da leitura

Confesso, já tinha saudades dos momentos em que tudo fica em pausa enquanto se mergulha nas páginas de um livro. Já andava há algum tempo a cultivar culpas.

A culpa é dos putos.

A culpa é de acordar cedo para correr e depois ao fim do dia o cansaço é muito.

A culpa é de passar o dia a escrever.

A culpa é dos telemóveis e da tecnologia que nos consome.

A culpa é haver tanta coisa em que colocar as culpas.

Mas chega de desculpas.

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A mudança de instalações no trabalho, por vários aspectos menos bons que tenha, trouxe novas e agradáveis oportunidades para ler, mas ler à séria, agarrando no livro e só largar a coisa depois de umas simpáticas páginas de avanço.

Seja no Metro, em que agora disponho de um período de 10-12 minutos para cada lado ou fazendo render a hora do almoço, enquanto o outono ainda se disfarça de semi-verão e o facto de estar a dois passos do rio torna tudo mais airoso. E a verdade é que fico com um ar super cool sentado num banco de frente para o Tejo a ouvir música e a ler. É um boost erudito.

Portanto, prepara-te Philip Roth mais o teu ‘A Mancha Humana’ – dá-me ideia que as tuas quase 400 páginas não vão durar muito. E não te estejas a rir, David Foster Wallace, a tua ‘Piada Infinita’ não se vai safar duas vezes.

 

Este marmanjão já está a trabalhar para voltar a ficar todo mental fit.

Mudam-se os cenários, não se mudam as cenas

Sexta-feira foi o nosso último dia no edifício onde trabalhei nos últimos cerca de 10 anos. Mais do que a vista (que era boa) ou da centralidade (que era óptima), não a perda dessa rotina habitual que me chateia. Afinal de contas, o destino da mudança não é trágico, as instalações novas têm boa pinta e irei tentar certamente arranjar forma de contornar o facto de não estar tão perto de casa.

O que me chateia é o facto de se confundir mudança de instalações com novos capítulos, quando pouco se faz para mudar a história.

Tinta fresca e cadeiras a estrear não chegam. E por cá, gosta-se tanto de inaugurar cenários novos que muitas vezes nos esquecemos que sem escrever de novo as cenas, a peça continuará a ser a mesma e isso não é necessariamente sinónimo de sucesso.

A dança das cadeiras

Na mudança de instalações que a minha firma se prepara para fazer, é curioso ver que há adultos mais ansiosos com a disposição dos lugares, o alinhamento político-estratégico e a análise geométrica de ângulos mortos e possíveis pontos de fuga do que putos a escolherem lugares na sala de aula no primeiro dia de escola.

O cu dos últimos dias de verão 

A oportunidade de ir à praia em Setembro traz-nos momentos inesquecíveis, amorosos e, por vezes, horripilantes.
Por um lado, para muitos o verão já acabou e a sensação de estarmos numa praia que parece só nossa, é de facto muito boa. Por outro lado, nada é mais ternurento que ver um casal de velhotes a chegar à praia ao mesmo tempo que nós para projectarmos um futuro 30 anos mais à frente e, por instantes, pensar ‘Será que isto vai ser assim lá mais à frente?’.

Mas é então que o velhote deixa a velhota a armar as 54 peças que compõem o seu espaço de veraneio, da cadeira ao tapa-vento, ao suporte para isto e para aquilo. Ficamos a segui-lo com o olhar, enquanto se dirige para o mar com ar resoluto. Impressionante, nem o mar algo revolto parece deter o seu entusiasmo – dá os primeiros passos e, com água pelos tornozelos, sente o fresco da maré a encher.

Volta-se então para terra e nessa altura pensámos que fosse saudar ou chamar a companheira. Uma saudação arrojada, uma vez que o passo seguinte foi baixar os calções de banho. Lá se foi o lirismo.

Com uma flexibilidade invejável, o velho dobra-se então todo para a frente, ficando uma posição que pode ser descrita como ‘cu para o mar, queixo para a terra, à espera da onda-supositório’. E em seguida, o horror, o horror em forma de caganeira brutal, que tenho dúvidas que o meu subconsciente consiga apagar sem esfregar muito. Assim, ali, sem filtro, com gente a passear à frente e nós em modo prisioneiros do momento.

Terminado o serviço, nada traz o lirismo e a jovialidade de volta como umas chapadinhas de água fresca no rabo. Já se escreveu poesia com pior enredo.

O mar fechou para nós depois disto e, até ordem em contrário, o paraíso da praia em Setembro terá sempre um cantinho de Inferno, onde o Diabo de cu espetado mancha para sempre o meu imaginário.