Músicos, overdoses e mortes precoces – revisitando o desaparecimento de Scott Weiland

Músicos, overdoses e mortes precoces, um tema recorrente.
Quando a coisa se dá com um músico que seguimos ou com uma banda que apreciamos, há sempre aquela angústia e insatisfação, tentar compreender o porquê, muitas vezes apenas para chegar à conclusão de que por muito fácil que seja julgar o desperdício, é impossível estar dentro da cabeça de uma pessoa e compreender o quão auto-destrutivos conseguimos ser.

Ao ler uns artigos e passagens sobre um desses casos – Scott Weiland, vocalista dos Stone Pilots que faleceu de overdose acidental há pouco mais de dois anos, deparei-me com perspectivas diferentes de um mesmo caso, mas que vão dar ao mesmo sítio com luzes distintas – a morte glorifica e ‘limpa’ muita coisa, mas há todo um caos que rodeia figuras em situações semelhantes, que só os que lidam de perto com elas podem avaliar.

Uma das frases que retive, de um dos irmãos DeLeo da formação original dos STP foi algo como ‘Não foi uma morte inesperada, foi o resultado de um suicídio que demorou perto de 15 anos’. Já a ex-mulher e mãe dos dois filhos de Weiland partilhava numa carta bastante emocional ‘Não foi ontem que perdemos Scott, isso já tinha acontecido há muito tempo, o que perdemos ontem foi a esperança’.

Na carta de Mary Fosberg Weiland, escrita também em conjunto com os dois filhos de Scott, é-nos pedido que não se glorifique a morte do artista, invocando-se apenas a sua memória artística, mas que se compreenda também que por detrás da mesma há tantas vezes uma convulsão e derrocada familiar que se repete e nunca se recompõe. Que cada um, em cada situação similar que se possa repetir faça os possíveis para manter tais traços afastados das nossas vidas. Para muitos, em parte como eu, que lamentam o desperdício de talento que se replica periodicamente e se agarram ao que o artista nos deixou de melhor, escapa o contexto dos seus filhos nunca tiveram o pai que queriam e desejavam, nem a esperança de algum dia o vir a ter. Se para além de ouvirmos com algum saudosismo faixas dos STP com Weiland no auge, aqueles que são pais investirem em tempo com os seus filhos ou com pessoas que ajudam a nossa vida a ser melhor, não precisamos de ser imortais para combater as múltiplas coisas que fazem de nós humanos e as falhas em que a nossa maneira de ser incorre.

A verdade é que é bonito ver a homenagem que os outros três membros dos Stone Temple Pilots fizeram, revivendo a gravação de um grande momento vocal de Weiland, deixando para trás desentendimentos e questões que em vida levaram até ao despedimento de Weiland da banda, após a enésima recaída no mundo das drogas. Na essência, Scott Weiland era aquilo, um showman de grande talento vocal. Mas, não há esponja que limpe o trilho que o percurso de Weiland deixa na sua família e, em especial, nos seus filhos. Não o refiro como forma de manchar a sua memória, mas sim como lembrança de que os nossos ícones também são pessoas e aquilo que os define vai muito para além da sua obra. Relembrar também as suas falhas é ter tempo para pensar nas nossas e, sempre que possível, atenuá-las.

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