Eu, o não poeta

Tenho com a poesia uma relação difícil.

Reconheço nela todas as virtudes da escrita, admiro a arte daqueles que nela bem navegam mas, até ver, consumo-a sempre em pequenas doses racionadas, como que a evitar um possível enjoo que nunca acontece.

Gosto dos jogos de palavras e sentidos, das narrativas não-lineares, da construção rítmica e traçado por vez ausente, mas depois fujo dela por não me oferecer aquilo que me cativa na prosa, mesmo que às vezes não consiga bem explicar o que é. Gostos, aquele escudo universal que diz tudo não dizendo nada.

E isto trata-se, é claro, da perspectiva enquanto consumidor. Enquanto produtor de linhas e letras coordenadas para sugerir algum sentido, sinto-me sempre um urso a barrar-se de mel antes de ir visitar abelhas quando arrisco algo com essa estrutura. Não é o meu campo, a minha batalha e posso ter as armas que os outros usam, mas não saberia dizer como se usam ou usá-las para delas tirar proveito. Linguagem poética, pela sua abrangência pode ser muita coisa, mas poesia é uma porta bem definida nesse edifício e só lá deve entrar quem não pretenda fugir à procura da saída.

Como tal, esqueçam futuros sonetos, a pesca aqui é outra. Agora só é preciso ir comprar uma cana.

Sofres de profissionalismo? You should have know better

Em boa parte, o profissionalismo é como a taxa de álcool no sangue: distrais-te um bocadinho a pensar nas coisas e passas dos limites para a média aceite como ‘normal’. Depois, obviamente, pagas por isso.

Portanto, para além de (mais) uma referência a clássicos da música de mofo dos anos 80, a verdade é que já trabalho há anos suficientes para não cair nestas armadilhas, mas tenho um problema, há uma percentagem de gozo naquilo que faço que não me permite muitas vezes ficar pelo meia bola e força, mesmo sabendo que posso estar a remar em vão.

Resumindo, duas ou três horas de domingo ou noite a fazer guiões com diálogos entre a personificação do futuro e pessoas interessadas em saber onde vão estar daqui a um mês. Uma bela alucinação, mas garanto-vos que dentro do esquema geral das coisas faz sentido. Faz não, fazia, porque cheguei segunda de manhã ao meu local de trabalho para saber que tudo aquilo que tinha estado a desenvolver foi parar ao futuro do caixote do lixo mais próximo.

Faz parte do jogo, mas pronto, chateia-me que os porcos nunca se fartem de pedir pérolas, mas depois prefiram banhos de lama para passar o tempo. Posto o desabafo, vou agora fazer uma aula de relaxing maracas, nova modalidade muito em voga em ginásios ficcionais.

Moisés e os Mandamentos de Pearl Jam

Ok, não é bem Moisés, mas é um David Letterman em modo profeta retirado a fazer a intro dos Pearl Jam no Rock n’Roll Hall of Fame. São 15 minutos, mas é interessante ouvir a evolução da história, quer da banda quer da relação de Letterman com eles, até ao muito sensível e tocante pormenor de Eddie Vedder e a guitarra oferecida ao filho de Letterman. Ah e tem algumas piadas interessantes.

Ainda a recuperar do rescaldo do final dos Sopranos, deixo lá mais para o fim da semana um revisitar do papel dos Pearl Jam na minha geração e o consumo de música nos dias de hoje.

10 anos depois do final dos Sopranos, I didn’t stop believin’

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Já passaram 10 anos desde o final dos Sopranos, uma série que contribuiu muito para a formação dos meus alicerces morais uma série que contribuiu muito para a forma como avalio o potencial das séries nos dias de hoje, em que se sucedem em catadupa, com um caudal tão vasto que nem em dez encarnações poderíamos acompanhar um terço delas decentemente. Mas, divago.

A verdade é que há dez anos se consumiam séries de forma algo diferente. O ‘binge watching’ esperava muitas vezes pelo lançamento em DVD e, embora já estivéssemos em transição do clássico ‘ver a série quando dava na TV’ para ‘vejo quando quero, no dispositivo que me apetece’, para quem via ao vivo o hábito do consumo moderado de episódios por semana ainda fazia sentido. Não criticando a racionalização actual do tempo, há séries e personagens que merecem uma digestão cuidada entre episódios, coisa que dispensamos quando estamos a aviar temporadas inteiras num fim de semana. Divago novamente.

Preâmbulo sem final feliz

Antes de entrar na vida de Tony Soprano, família(s) e amigos, um parágrafo para falarmos de relações afectivas com séries. Quando gostamos delas e as mesmas são bem estruturadas, é natural que o seu fim chegue numa altura em que ainda nos encontramos presos a elas, aos seus personagens, às suas rotinas e que não os queiramos deixar ir. A meu ver, numa série com qualidade inicial nada é mais deprimente do que ir perdendo o interesse num enredo que se devora a ele próprio até não restarem mais do que rotinas e truques, reles sucedâneos do seu auge. As comédias são, por norma, boas vítimas disso, talvez porque sustentar um enredo cómico para além de um certo ponto se limite ao repetir de truques, tiques e rotinas, sem que o enredo avance por aí fora (para, muitas vezes, depois ter que se chegar a uma conclusão pouco satisfatória, porque acabaram os créditos e aquilo tem que se acabar dê por onde der).

Portanto, uma série de alto nível, para não o deixar de ser tem que acabar num ponto alto de interesse. E isto é o Ponto 1.

O Ponto 2 é que, tendo isso em conta, boa parte dos fãs vai ficar fodida com o final, seja ele qual for. Quando estamos agarrados criamos expectativas em relação ao seu final ou, simplesmente, não queremos que acabe, mesmo sabendo que isso tem data marcada. E é claro que os argumentistas não vão respeitar os nossos desejos, porventura muitas vezes acabam até por ter que ceder e não cumprir totalmente com os seus desejos iniciais.

Contudo, perante uma insatisfação que sei que não me vai largar, acima de tudo quero que me puxem o tapete e me supreendam, não quero aqueles finais de novela em que as pontas ficam todas atadas, os conflitos todos resolvidos e não ficam dúvidas por responder.

Sim, sou um fã de finais abertos, porque acredito que a imaginação de quem cria algo que cria empatia comigo, pode ter continuidade para além do fim existencial da coisa. Obviamente, não abomino todos os finais fechados, creio que de ambos os lados tem que haver uma mestria para aquilo não ficar a cheirar a refogado ou desaparecer em fade porque sim, como muitas músicas, só porque ninguém soube como terminá-las de outra forma. E, por falar em coisas que não podiam terminar de outra forma.

Um círculo perfeito à volta de Tony

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Os Sopranos são uma obra prima a vários níveis, em termos de ficção televisiva, de enredo, casting e interpretação e por aí em diante, que nunca irá desaparecer ou diluir-se enquanto se falar do formato série e do seu Monte Olimpo. E sim, o eterno e malogrado Gandolfini era a alma e o pulmão da mesma, dentro de um elenco em que raros eram os papéis que não contribuíam de forma perfeita para o resultado final. Mas ter tudo o que é preciso na medida certa não basta, é preciso não jogar pelo seguro.

O rótulo ‘série de culto’ enquanto uma série ainda está a decorrer é algo impossível, mesmo numa época em que a validação imediata é o caminho para o sucesso, a relevância cultural só se ganha ou perde com o passar do tempo mas, neste caso, pela construção cuidada das várias temporadas, do enredo, da fina interpretação, até pela resolução das suas falhas (todas as séries as têm), o seu rótulo começou cedo a ser impresso e eu, que a acompanhei quase na íntegra em directo há muito que me interrogava em que estado me iria deixar o seu final, enquanto fã de ficção, de guionismo, do contar de histórias nos prendam do princípio ao fim mas, acima de tudo, fã de Tony e do seu mundo.

Poupando-vos aos detalhes daquilo que é a recta final da série (se se lembram melhor, se viram e não se lembram, que boa desculpa para lá voltarem, se não viram, olhem que envelheceu bem e vale a pena) entremos nos últimos minutos do último episódio e é aqui que nos separamos dos que não querem saber, pois entramos em território spoiler.

Made in America, lixado à portuguesa

Começo por dizer que uma mágoa que tenho é a de não ter visto este último episódio em directo ou emissão televisiva em Portugal. Vi-o gravado e isso é penoso para mim, que tenho o mau hábito de controlar o tempo dos episódios pois, sabendo a duração aproximada dos mesmos, começo a suar do bigode quando vejo que temos pouco tempo até ao fim e muita coisa para resolver. Começo a fazer futurologia de finais a 200 à hora.

Antes de falar do mesmo, imagino o histerismo de quem o visse em directo e aposto que alguns televisores possam não ter acabado em bom estado. Mas vejamos os últimos minutos. Uma família junta-se numa qualquer cafetaria americana, da qual não haverá retorno para nós, espectadores. A cena é comum, o final não se vislumbra óbvio.

Final aberto-fechado magistral ou ‘Que é esta merda, onde é que já se viu, não souberam acabar esta trampa e deixaram-nos pendurados? Tony? Tony? Estás aí? Bate duas vezes se me estás a ouvir’

Para mim, depois de uns palavrões da praxe, que poderei ou não ter dito, rendo-me às evidências. Isto é do melhor que já se fez, por todo o acumular de tensão (especialmente para quem está a ver o tempo que falta, vulgo eu), por todas as nuances de primeiro e segundo plano e por não cheirar a festa mofosa de final de série. Nós sabemos que tudo vai acabar, mas os personagens estão a viver a sua vida. Nós podemos desconfiar de A, B e C, mas isso não vai afectar em nada o desfecho. Nós tentámos reunir indícios todos, a partir dos últimos episódios que nos levaram ali, há pistas que nos deixam encher a barriguinha com o nosso poder de dedução, mas isso não servirá de nada, porque vamos comer o prato que nos serviram e não o que pedimos.

Cut to black abrupto, silêncio absoluto na música que nos pede para continuarmos a acreditar.

É morte? Claro que é, o assassino foi ali, depois passou além, o jogo técnico de pontos de vista, imagem e som a darem-nos baile em directo. Nem podia ser de outra forma, homens como Tony Soprano não vivem eternamente a gozar dos seu momentos à custa de tantas vidas desfeitas.

Mas, e se quiseres acreditar, continuando tu a trautear os Journey? É claro que podes fazê-lo, nada foi explícito, há margem para tudo, a vida ali continuou sem que nós saibamos como, porque a nossa também tinha que continuar aqui e eles quiseram deixar-nos uma semente na imaginação. E se…

Não creio que se pudesse fazer melhor, não acho que me poderiam dar mais satisfação do que me tirarem o tapete dos pés assim, deixando-me a pensar, a reviver momentos, pela decisão de não fecharem a porta das 90mil maneiras que poderia ter previsto. Simplesmente arrancaram a casa do chão.

Continuar a acreditar assim é fácil, mas extremamente difícil porque nos vamos deixar encantar por outras séries, outros contadores de histórias, todos eles a tentarem ser originais, a superar-se num oceano de ficção cada vez maior. Há muita coisa boa a ser feita, mas a relevância cultural faz-se das coisas que permanecem para sempre na memória, apesar de todas as novidades que se nos apresentam.

E estes pouco menos de cinco minutos são, no meu modesto entender, memoráveis por si só, sem necessidade de explicação em vídeos a dizer o que aconteceu e porque é que A faz isto, B fez aquilo e plano Y indica que o que realmente aconteceu foi Z ou ter que percorrer fóruns, threads e blogs a dizer que é bom, é mau ou devia ter sido assim ou assado. São memoráveis porque são a súmula perfeita da essência de Tony, da sua família, da sua vivência e do caminho que percorreram para chegar ali. O desfecho não é aquilo que vemos, é o que entendemos que deve ser.

E eu sempre quis que fosse algo em que eu continuasse a acreditar.

Let’s look at the trailer

Fazer um trailer, um bom trailer, é uma arte.

É dar-nos uma amostra da sobremesa (se forem fãs das ditas cujas), sem nos explicar o que é o resto da refeição e convencerem-nos a papar tudo, podendo vir a descobrir que a sobremesa era só mesmo a amostra que já provámos.

Quando o meio é visual, é mais fácil de criar essa arte, já vi book trailers mas deixavam algo a desejar, são as ‘hamburgas’ de soja deste mundo. Podem dizer que são enganadores mas, se acham que ser enganados por trailers é mau, posso garantir-vos que a vida tem coisas muito bonitas para vos mostrar.

No meio disto tudo, gostava que alguém fizesse o trailer da minha vida até agora. Nada de merdas piegas comigo em velho (se lá chegar) a olhar para um slideshow dos melhores momentos. Um trailer que surpreendesse, captando coisas que se calhar eu próprio não daria a relevância necessária, trocando-me as voltas e, se eu pensar que a coisa é comédia, dar-me um romance histórico. Isto partindo do princípio que há matéria prima para mais do que um cartão a negro dizendo ‘Estudasses’.

Tenho curiosidade, mas cheira-me que é coisa para não estrear em breve. Mas, falando de coisas clássicas com tons diferentes e no ponto de partida que este post com King, Kubrick e KNicholson (só para haver coerência fonética), lembrei-me desta pérola.

 

One piada hit wonders

O conceito de one hit wonders é, normalmente,  associado ao mundo da música. Trata-se de um fenómeno curioso e triste ao mesmo tempo de pensar que numa carreira toda dedicada a algo, só se safou um título a nível de sucesso. Bem, pode sempre dizer-se que ter um sucesso é melhor que não ter sucesso nenhum, mas não sei se o sabor efémero do sucesso não deixa um travo mais amargo para tudo o que vem a seguir.

E isto não se aplica só a música pop de trazer por casa, se estivéssemos a falar de ópera era estar a dizer que o Mascagni e o Leoncavallo só produziram uma ópera de real sucesso, quando tal não é verdade, apesar de também não ser mentira, especialmente para quem como eu só tem um conhecimento superficial da área.

Aplicando transversalmente o conceito a coisas mundanas, penso naquelas pessoas que se esforçam imenso por ter piada. Não me refiro às que são naturalmente engraçadas ou às que sabem tirar partido de certas situações para fazer humor. Falo das pessoas que, não sendo bafejadas por esse dom (e fazer rir da melhor forma, é um dom), insistem, insistem, disparam, disparam, tentam, tentam…

…até que um dia, por alguma conjugação de efeitos, têm uma tirada, participam num momento em que conseguem ser bem sucedidos. Numa análise racional, toda a gente à volta, incluindo essa pessoa, sabem que aquilo não se vai repetir, quanto muito terá o carácter cíclico de um cometa Halley, mas desfrutam do momento e seguem com a sua vida.

Já o autor da piada, preso nesse loop, tenderá a tentar replicar esse momento, redescobrir os ingredientes mágicos, na esperança de voltar à alquimia do humor. E falhará monumentalmente, porque uma boa piada repetida por alguém sem dotes humorísticos, é como peixe cozido reaquecido no microondas – a magia não vai acontecer.