Blade Listener, ou como ouvir um filme é muito bom

Já se escreveu muito por aí sobre o Blade Runner, tanto muito e bem como muito e mal, como é natural nesta época onde não faltam plataformas e vontade de opinar. Por isso, não quero ser mais um, basta-me falar da música.

A banda sonora do filme, faixas do Elvis, Frank Sinatra e a medonha cantilena final à parte, é tudo o que se espera de um filme tão cénico como este. E, sabendo que o processo foi tomado a meio pela dupla Zimmer e Wallfisch, depois da solução inicial não ter ido ao encontro do que queria o Dennis Villeneuve, mais valor me faz dar à mesma.

E eu sou daqueles que dá muita relevância à componente sonora de um filme, experimentem só ver um filme que seja sem música para ver que a experiência é muito mais redutora. Por isso, ouvir de novo esta mescla industrial, fria mas ao mesmo tempo harmoniosa e envolvente é tudo o que me basta para reactivar na memória toda a experiência visual do filme. Vejamos esta faixa:

No filme ela surge num momento crucial, onde se decide parte do desfecho final, numa parte obscura onde há mar e escuridão envolvidos, a par de confronto e incerteza. E, mesmo sem ter que ver mais nada, do crescimento da tensão à resolução, eu consigo acompanhar tudo só de ouvir a faixa. E isto, meus amigos, é o que se espera de uma banda sonora, obviamente a par da sonoplastia que envolve tudo.

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O azar da sorte

Por um lado há um conforto egoísta de estar aqui em Lisboa e não ver fumo e fogo sem ser nas caixinhas de pânico e tristeza que um gajo tem à volta. Por outro, a mera sorte geográfica não toca a todos e estar em Lisboa pode não querer dizer nada quando família e amigos lutam pela vida e por tudo o que lhes resta.

Vejo muitas opiniões, leio muita coisa, culpabilizações e inércia, falta de capacidade e de noção, tudo isso alimentado-se do fogo como este se alimenta da vida das pessoas.

 

O verde é a cor da esperança, mas o verde está a ficar cinza com a esperança toda a esvoaçar por entre os dedos.

Tal como há o sentimento de vergonha alheia, não sei como definir esta sensação de impotência alheia, perante tanta gente que podia ser eu e os meus, não fosse a sorte de eu estar aqui em Lisboa e não algures a ver a minha vida consumida em chamas.

 

O amor é cego, os pastéis de nata também

Gosto de ter crescido num bairro típico de Lisboa, onde as histórias que trago da infância são diferentes daquelas que me rodeiam nos dias de hoje. São uma espécie de memórias irrepetíveis, não só porque são minhas, mas também porque são de um tempo em que os seus personagens e os seus momentos não encontram réplica nos dias de hoje.

Esse é o caso de um vizinho que morava a dois prédios de distância dos meus. Homem seco de feições duras, mostrava um cuidado e dedicação por dois carros velhos que mantinha estacionados à porta que não se estendia de forma tão evidente à sua esposa. Contudo, com o passar dos anos, deu-se a infelicidade da perda gradual de visão da senhora o que, associado a algumas maleitas físicas, a deixava confinada boa parte do tempo a uma posição sentada.

O senhor lá tentava dar-lhe mais atenção, quando o tempo estava bom trazia a cadeira de rodas cá para fora ou sentando-a no carro a ouvir música enquanto ele o lavava pela trigésima vez em duas semanas. Num dos dias, ia eu à mercearia da rua de baixo, ouvi-a dizer: ‘Ai, apeteciam-me tanto dois pastelinhos de Belém…podíamos ir lá de carro, são dez minutos…’

Estamos a falar da Ajuda, a dois passos de Belém, pelo que pensei que não seria difícil lá darem um salto e fazer a vontade à senhora, coitada nem ver podia, ao menos tinha esse consolo ali tão perto. E lá fui eu à minha vida.

Ao voltar da mercearia, comecei a subir a rua que levava à minha, na qual vivia esse casal. De longe conseguia ouvir o senhor a dar umas aceleradelas ao carro e, quando me aproximei vi que o motor estava ligado a trabalhar, mas dentro do carro parado no mesmo sítio onde o tinha deixado só estava a senhora. Eis quando, saindo do café ao lado de sua casa, lá vem o homem com um pires na mão. Ao cruzar-me com ele, vejo dois pastéis de nata e, tentando não dar nas vistas, virei-me discretamente enquanto ele se debruçava na janela.

‘Foi uma sorte, querida, não estava ninguém na fila – toma lá dois pastéis de Belém e olha que ainda estão quentinhos…’

Afastei-me a pensar se tinha visto um acto de amor ou da coisa mais parecida com isso que tal alma conseguia expressar, uma intrujice amorosa ou uma preguiça criativa. Ainda hoje não tenho bem a certeza…

Report Estatístico-Social de uma viagem de Metro

(amostra: a minha carruagem, pela manhã)

10 pessoas agarradas ao telemóvel vs 4 pessoas agarradas a livros

4 mulheres a ler vs 0 homens a ler

1 pessoa aos berros ao telemóvel a falar da festa de anos da filha vs 28 pessoas a tentar não ouvir detalhes sobre a cobertura do bolo

1 pessoa de óculos escuros com cara de sono vs 1 pessoa de óculos escuros com cara de ressaca

3 pessoas de phones a ouvir música só para si vs 1 pessoa de phones a fritar os tímpanos em menos de 3 estações

1 pessoa jovem a tentar compor um soutien pouco cooperante vs 1 pessoa de alguma idade a torcer pela falta de cooperação pelo canto do olho.

3 pessoas da zona indo-asiática a tirar fotos a si mesmas debaixo do placard com o diagrama do Metro vs 1 pessoa mitra a tirar foto às 3 pessoas da zona indo-asiática a tirar fotos a si mesmas debaixo do placard com o diagrama do Metro.

2 pessoas a mascar pastilha de boca aberta vs 1 pessoa a tentar engolir uma sandes como se fosse um crocodilo.

(para mais detalhes, por favor contacte a nossa secção de estudos avançados)

A vida mentirosa de Blaze e do menor sem carta que o ‘conduz’

Nos intervalos dos seus estudos de filosofia clássica e aprendizagem de mandarim, o meu filho de dois anos gosta da actividade mundana de ver desenhos animados. Entre variada bicharada e algumas suspeitas piscadelas de olhos às Wynx, de quando em vez lá vem o drama mascarado de paródia do Blaze e das Monster Machines.

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E, como não há tempo a perder na hora de educar as crianças, eis cinco razões pelas quais o Blaze deve ser banido rapidamente do tempo de antena dos vossos putos:

Onde raio andam os pais do AJ e quem é que deixa um puto conduzir um camião?
Sim, é tudo muito divertido, mas o AJ, é uma criança que fala com carros sem nunca referir a família (que também nunca parece preocupada com ele). Assim, tem sempre tempo livre para conduzir um carro ou fingir que o faz, já que o Blaze aparenta ser um Transformer que nunca conseguiu prosseguir nos estudos e o AJ de certeza que vai pelo mesmo caminho. Aliás, como podemos ter a certeza que o Blaze não atropelou a família de AJ? (Eu vi o ‘Christine, o Carro Assassino’, sei bem como isto se faz)

Os vossos animais de estimação correm perigo
Mais uma vez, uma grande diversão, há camiões-bode, camiões-macaco, camiões-panda e até camiões-papagaio. E depois há dois gatos lá em casa que têm que fugir cada vez que o miúdo lhes tenta ‘encaixar’ rodas de carro, por achar que os desgraçados vêm com defeito.

Camiões armados em Luís de Matos
Acredito em coincidências, mas há coisas que me deixam doente. Cada vez que Blaze tem um problema, consegue fazer materializar do nada uma solução milagrosa. ‘Estou soterrado em pedras’ Não há problema, nasce-lhe uma broca nas costas. ‘A cidade inteira converteu-se num pântano de espuma e óleo.’ Tranquilo, crescem-lhe barbatanas assim do nada. Imaginem quando o vosso filho estiver a ser ameaçado por mitras na escola e ficar à espera de lhe crescerem asas para voar dali para fora…Mais vale irem já marcando uma consulta no dentista. É que eu, da última vez que tentei fazer aparecer, do nada, notas na minha carteira, tive que fugir do restaurante sem pagar.

As armadilhas vocais de Blaze
Já não bastava o vasto manancial de músicas para crianças que torturam adultos que deram por si a ser pais, como o sacana do Blaze havia de ser pejado de exemplos de interactividade do cocó, ou seja, os gajos começam as frases e depois deixam em suspenso para os miúdos completarem. O problema é que, quando os miúdos têm dois anos, borrifam-se um bocado no efeito e os pais, sentados por vezes a tomar o pequeno almoço, dão por si hipnotizados e a sentirem-se na obrigação de de completar uma frase, dizendo alto ‘ALAVANCA!!’, ‘ÂNGULO PEQUENOOOO!’ ou, mais deprimente ‘VAI, BLAAAZE!’. E a criança a olhar para ti, com ar reprovador…

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O batoteiro nunca ganha e é para lá de burro
Esta, para mim, é a que pior faz às criança – na série o Crusher é um camião frustrado que faz batota sem sucesso com baixo QI e cilindrada, sendo sempre batido pelo Blaze, sendo alvo da chacota e do ridículo de todos. Deixem os vossos filhos crescer a pensar que quem faz batota nunca se safa e é sempre parvo e vão ver quem serão os totós no final da festa. Há muita gente esperta que é trafulha e nem todos tropeçam nas suas próprias fugas de óleo. Quanto ao Pickle, o companheiro moralista do Crusher, é basicamente um merdas que abdica da sua personalidade para se tentar dar bem com toda a gente, super participativo e disponível para tudo. Na vida real, seria para desmontar e vender por peças, coisa que infelizmente não podemos fazer a pessoas assim.

De volta ao ginásio da leitura

Confesso, já tinha saudades dos momentos em que tudo fica em pausa enquanto se mergulha nas páginas de um livro. Já andava há algum tempo a cultivar culpas.

A culpa é dos putos.

A culpa é de acordar cedo para correr e depois ao fim do dia o cansaço é muito.

A culpa é de passar o dia a escrever.

A culpa é dos telemóveis e da tecnologia que nos consome.

A culpa é haver tanta coisa em que colocar as culpas.

Mas chega de desculpas.

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A mudança de instalações no trabalho, por vários aspectos menos bons que tenha, trouxe novas e agradáveis oportunidades para ler, mas ler à séria, agarrando no livro e só largar a coisa depois de umas simpáticas páginas de avanço.

Seja no Metro, em que agora disponho de um período de 10-12 minutos para cada lado ou fazendo render a hora do almoço, enquanto o outono ainda se disfarça de semi-verão e o facto de estar a dois passos do rio torna tudo mais airoso. E a verdade é que fico com um ar super cool sentado num banco de frente para o Tejo a ouvir música e a ler. É um boost erudito.

Portanto, prepara-te Philip Roth mais o teu ‘A Mancha Humana’ – dá-me ideia que as tuas quase 400 páginas não vão durar muito. E não te estejas a rir, David Foster Wallace, a tua ‘Piada Infinita’ não se vai safar duas vezes.

 

Este marmanjão já está a trabalhar para voltar a ficar todo mental fit.

Mudam-se os cenários, não se mudam as cenas

Sexta-feira foi o nosso último dia no edifício onde trabalhei nos últimos cerca de 10 anos. Mais do que a vista (que era boa) ou da centralidade (que era óptima), não a perda dessa rotina habitual que me chateia. Afinal de contas, o destino da mudança não é trágico, as instalações novas têm boa pinta e irei tentar certamente arranjar forma de contornar o facto de não estar tão perto de casa.

O que me chateia é o facto de se confundir mudança de instalações com novos capítulos, quando pouco se faz para mudar a história.

Tinta fresca e cadeiras a estrear não chegam. E por cá, gosta-se tanto de inaugurar cenários novos que muitas vezes nos esquecemos que sem escrever de novo as cenas, a peça continuará a ser a mesma e isso não é necessariamente sinónimo de sucesso.