Ontem fiz a minha primeira ultra e acabei em último. Não podia ter ficado mais satisfeito.

IMG_4063

Era para ter ido fazer 50kms ao Piódão, não foi possível. Uma semana depois vinguei-me numa prova muito especial ‘A Ultra do Teimoso em Monsanto’, uma prova que acontece só porque sim. E porque a história já precisava de uma página assim

O facto é que quando jogava basket comecei a correr como complemento, fiz umas provas e gostei. Conforme o gosto por correr foi evoluindo, tentei conciliar o melhor possível com o basket, agora já no nível fun do campeonato do Inatel. Fiz maratonas, umas gostei mais do que outras, mas continuei, até porque entretanto descobri e fiquei fascinado pela variante de trail.

Há perto de dois anos, com o primeiro filho no horizonte, fui experimentar uma coisa chamada ‘A Hora do Esquilo’ em Monsanto. A hora é ‘convidativa’ (acordar às 5 e pouco, para correr das 6 às 7), mas a minha guia vendeu-me bem a coisa e na verdade o primeiro treino foi logo para recordar, já que fomos parar à Margem Sul, chegámos atrasados e acabámos a fazer um percurso em que ela serviu de guia turístico a solo.

Gostei e voltei, essencialmente porque o espírito do grupo é uma categoria e a presença de gente que sabe muito, faz muito e corre muito é sempre inspiradora e desafiadora no bom sentido, ou seja, quem lá está inspira-nos a evoluir e a não nos sentirmos mal por não estarmos (nem se calhar alguma vez virmos a estar) ao seu nível.

Quando o meu filho nasceu, tive que fazer uma escolha difícil – basket ou corrida/trail. Sei que no mundo ideal essas escolhas não existem, mas a logística profissional e familiar assim o exigiam, pois manter os dois desportos obrigaria a cortar em campos onde tal não faz sentido face a hobbies, por mais importantes que eles sejam. Pagou o basket, no sentido do praticante, porque senti que depois de 25 anos a jogar, tinha mais margem para evoluir na corrida e a flexibilidade de horários tornavam-na uma escolha mais funcional. Ficou a modalidade do coração em suspenso na versão observador.

Ao longo destes dois anos tenho conhecido muito boa gente, com histórias inspiradoras nos trilhos e fora deles, tenho feito provas divertidas, tenho madrugado muito e, com ajuda da senhora da casa, que junta à maratona que já fez a capacidade de sofrimento de ‘quase não ouvir’ o alarme que toca regularmente às 5.15 da matina, garantir que a mini-tropa permanece orientada.

Para mim, o grande fascínio do trail, para além dos cenários que nos permite ir conhecendo e dos amigos que vamos fazendo é que, mesmo em prova, o corredor comum corre apenas contra si próprio, ou melhor, enfrenta apenas a sua vontade de se superar. É claro que treino regularmente com gente que tem aspirações (e capacidades) mais elevadas, mas também sempre aprendi que é a treinar com gente melhor que se evolui e portanto os objectivos deles servem, indirectamente, os meus. E sim, também conheço outras pessoas ‘comuns’ que já avançaram para patamares mais altos e feitos mais épicos, mas isso nunca me perturbou. Sempre fui muito competitivo mas, no mato, sinto-me tranquilo comigo mesmo, porque sei balancear entre a fase da minha vida em que estou, aquilo a que posso aspirar e estou disposto a dar.

Tudo muito bonito, sim senhor, para as pessoas normais hei-de continuar sempre a ser um maluco que se levanta de madrugada para ir correr, paga para entrar em provas e, com sorte, acaba no primeiro terço da tabela. Mandem vir, eu aguento.

Só que tinha aqui uma coisa a remoer-me o espírito e com um novo capítulo a aproximar-se queria tirar já isso do horizonte – fazer uma ultra-maratona. Já fiz provas com algum desnível no mato, já fiz até maratonas estilo trail, mas faltava-me uma ultra (+ de 42kms). Não por objectivo louco, mas por teste e porque sim (óptima razão para tudo) – Apesar do treino estar uns furos abaixo do que devia, era suposto ter ido ao Piódão enfardar 50kms de sobe e desce na serra. A logística familiar não foi favorável e isso não aconteceu.

Dado um novo conjunto de olímpiadas que se aproxima para o resto do ano (para não falar no escalão +40 anos), o timing era escasso. Teve que ser improvisado e à porta de casa, mas não houve dúvidas que ia acontecer. Então veio domingo e saí de casa por volta das 6 da manhã, rumei a Monsanto para ver o nascer do sol junto à prisão e depois foi seguir por ali em diante. Vasculhar quase todos os cantinhos do local onde tantas vezes treino, manter o ritmo tranquilo e contar com ajuda de um amigo para os 18kms finais. E faz toda a diferença ver que há amigos que acreditam em maluqueiras tanto como nós e até fazem de abastecimento improvisado com água e frutos secos à discrição.

O final foi durinho, por causa do calor, mas fez-se o que havia a fazer e, passados os 45kms, a decisão dos 50kms foi fácil de adiar – ficam guardados para o ano, no Piódão. Na meta, no Parque do Penedo não havia medalhas, nem tshirt, havia apenas o regresso ao local onde tudo começou. Há novos capítulos para escrever, mas este fez todo o sentido que acabasse desta forma, comigo em último lugar mas, ao mesmo tempo, em primeiro. Porque no final das provas, independentemente do que diga o chip, a verdade é que as coisas são sempre assim.

Silêncio (dos não inocentes)

Nos últimos tempos não tenho ido muito ao cinema – chamemos-lhe ‘cláusula de parentalidade’. No entanto, sempre que a oportunidade surge, nada como visitar o grande ecrã e, não havendo nada que me surgisse logo como primeira escolha, fui pela opção segura, ‘Silêncio’ do Scorsese (que ironicamente bateu ‘La la Land’ no desempate final).

silence2016__article-hero-1130x430.jpg

Não era um filme que quisesse ir ver particularmente ao cinema, não por desdenhar da matéria, mas porque já sabia que era longo, a acção não faria realçar a escolha pela ida ao cinema e porque me faria pensar em várias nuances filosóficas e não só. Para esse tipo de filmes, prefiro reservar um sofá.

Esta é a parte em que, caso não gostes de spoilers, vais dedicar-te a ver o estado do tempo em sites de metereologia.

Para mim, neste filme adaptado com muita calma por Scorsese a partir de um livro com o mesmo nome, mais do que o percurso do Padre Rodrigues (Andrew Garfield) ou do bonito que é ver Kylo Ren a espalhar a fé a partir de Portugal (se bem que Garupe é apelido português sui generis), interessava-me compreender um bocadinho mais o impulso/repulsa do período de expansão católica no Japão.

Obviamente, no plano histórico há muito mais para além do impulso jesuíta a promover a presença no Japão de estandartes lusitanos. Há o interesse comercial, há a defesa face à ‘invasão’ hispânica (que já dominava as Filipinas) numa zona do Tratado que devia ser ‘nossa’, mas na qual Holandeses já gravitavam com bastante influência na balança comercial.

Mas o capítulo da fé é curioso, mesmo a um nível de leigo como o meu, porque o conjunto de metáforas que os protagonistas japoneses usam para explicar o porquê da reversão da abertura inicial à expansão católica é mais do que o sinónimo do seu esforço para manter o xintoísmo inatacável. É o confronto entre duas formas de pensar, ocidental e oriental que, até hoje, muitas vezes funcionam melhor em paralelo do que cruzadas.

Apesar do filme se fixar na conversão/sobrevivência de várias populações de base, camponeses simples, pescadores, etc – naquela fase isso era apenas uma amostra do que restava. Pelo que li e sei, a política de conversão católica privilegiava muito mais senhores feudais, nobreza e altos cargos nipónicos por saber que a conversão do Senhor, facilitaria em muito a chegada aos seus servos. E, para além disso, criaria muito mais facilidade na construção de relações para além da base, a nível comercial/militar, etc, campo onde os holandeses já eram bem mais estabelecidos (numa fase em que o Japão se fechava ao comércio com nações estrangeiras, período que duraria até à ‘chegada’ do impulso americano).

Como será natural, quando a repressão aumentou, o topo cedeu muito mais facilmente que a base, sobrevivendo nas comunidades mais dispersas e nas zonas menos vigiadas do Japão. E porquê a persistência, quer de missionários, quer de populações submetidas a disciplina e perseguição muito grave?

Aqui avanço em pura especulação, até porque o filme retrata o esforço dos dois padres portugueses como uma demanda espiritual na busca do seu mentor, mais do que um investimento da Igreja numa causa que já considerava perdida (e com muita porradinha religiosa da boa a acontecer na Europa, em vários cantos, separando vários ramos da igreja, etc).

Há uma questão, levantada por um personagem que encara um tradutor português-japonês por altura do cativeiro do padre Rodrigues: ‘Será que os padres sabiam, no seu parco japonês, o que estavam a professar às populações? Será que a compreensão das populações do que é o Catolicismo, não estaria muito deturpada da realidade da mesma?’ O papel do pescador-traidor parece indicar essa tal confusão, já que o mesmo procura sucessivamente a absolvição, apenas para fraquejar novamente de forma grave e continuar a alimentar esse círculo. É claro que isso não serve como desculpa para qualquer tipo de perseguição-repressão religiosa, mas o Japão estava longe de ser uma nação igual à maior parte das que já tinham sido alvo do trabalho de missionários.

O filme pretende, de certa forma, elogiar o trabalho, dedicação e devoção dos jesuítas portugueses num país que, na época que atravessava, lhes colocou pela frente as maiores provações. Mas, será que estes tiveram alguma vez a noção da cultura em que se envolviam e da forma como a sua presença iria impactar a vida de tanta gente, sem qualquer previsão do seu destino?

Creio que não e, não entrando também na parte do complexo de Messias que os japoneses várias vezes referem, a minha dúvida maior depois de ver o filme e ir pesquisar mais alguma coisa sobre o assunto – Será que aqueles que adoptaram a fé católica no Japão compreendiam as nuances da mesma ou, a cultura e a difícil compreensão (a par das barreiras linguística) não terão levado a que o catolicismo japonês fosse um derivado que ganhava fãs pela perspectiva (deturpada?) que, mesmo perseguido, mais valia morrer católico rapidamente, do que levar uma vida inteira de dureza e opressão através do binómio religião-estado japonês, entre várias outras concepções paralelas. O filme tem vários pormenores que me parecem demonstrar que havia uma compreensão lata e que o esforço de integração de conceitos como ‘confissão’, ‘paraíso’, ‘absolvição’, ‘baptismo’ poderá ter sido bastante simplificado para contrapor/expor a fé católica face ao budismo japonês. A própria renúncia à fé é, muitas vezes, simbolizada por um acto quase ‘legal’ de pisar uma imagem, que pouco quereria dizer em termos de manutenção da fé.

O que é que isto implica? Ficar um pouco na dúvida sobre tudo isto, sobre os cabelos resistentemente sedosos do Padre Rodrigues, sobre se o Liam Neeson era mesmo necessário para 15 minutos de ar aterrorizado vs resignado e sobre se o filme tem a força para um toca e foge numa epopeia tão complexa como aquela a que São Francisco Xavier deu início.

Sobra a certeza de um excelente casting ao nível de actores japoneses e sobre uma fotografia e sonoplastia de grande categoria, a dar uma visão interessante sobre o Japão desconhecido do séc.XVII.

 

Bovino

O computador, telemóvel, tablet, seja lá o que for, devia disparar uma selfie automática quando descobrimos que há um ficheiro que acaba de nos tramar a vida ou o sistema gera um erro que nos deixa de quatro a carregar em botões com ar bovino.

Quando um dia conseguíssemos rir dessa foto, era sinal que o trauma já estava superado.

Agora vou continuar a ruminar a olhar para um Word que se transformou num Without Words em questão de segundos.

Lama

Andamos tantas vezes presos ao lamaçal do quotidiano que nos esquecemos da boa e velha diversão que é brincar com lama no Inverno, sem preocupação de limpeza, regras de conduta e afins. É que oiço marcas como a Skip a dizer aos pais que é bom que as crianças se sujem, mas ninguém se preocupa muito com esta vertente para os adultos, aos quais muitas vezes faz falta um momento de lavagem da alma com recurso, por exemplo, a 28kms de lama.

Ontem lembrei-me disto, enquanto patinava ao mais alto nível por uma descida fora, no meio de um lamaçal de um trail super divertido (nem que seja porque não fui provar a lama com a boca) a apenas 30 minutos de Lisboa. E, no fim de tudo, enquanto demorava 20 minutos só a tirar o equipamento, posso dizer que cada centímetro valeu a pena.

 

 

Quando a fé vive por debaixo de um clube de snooker.

Os caminhos do Senhor, embora muitas vezes insondáveis, noutros casos vão dar a clubes de snooker no 2º andar de prédios. Vejamos a parábola da ‘Fé no Quiz’:

Sexta feira fui experimentar um formato novo de quiz que, calhou bem, teria lugar num clube de snooker que fica a dez minutos a pé de minha casa. Lá fui eu cheio de fé e isso deve ter-se sentido no ar.

Ao chegar à porta do prédio, um senhor de alguma idade vai a entrar à minha frente. Pensei logo: ‘Um veterano…deve ser forte a História, Geografia, porventura alguma Música Clássica e…’

‘O amigo é da Igreja?’ – o velhote sorriu para mim e, com essa entrada, quebrou-me logo o pensamento.
‘Eehhhrr…Não…’
‘Mas vai ser!’ Disse ele, lançando-se aos primeiro degraus sem perder o sorriso.
‘Pois…nunca se sabe’ – Sérgio usa a famosa táctica de conversa mole altamente vaga.

Estamos no primeiro andar, eu pretendo ir para o segundo, velhote evangelizador bloqueia-me no patamar.

‘Então, já está perto e tudo’ Sorri novamente e, como que por magia, abre-se uma porta e lá dentro, resplandecente, o Arcanjo Gabriel toca uma trompeta.
Mentira, foi só um negão, para aí com 1,90m que abriu a porta e tinha o telemóvel a tocar com um mambo qualquer.
‘Talvez ao descer, que eu agora tenho de subir’ – Com uma boa finta de corpo escapei-me a um possível abraço fraternal e lá fui eu escada acima, rumo ao clube de snooker.

Ainda ouvi uma voz a dizer lá atrás ‘É quando as pessoas vão descer que nos procuram mais…’ Juro que se tivesse olhado, ele estaria a sorrir, agora na companhia do Arcanjo Negão.

Posso dizer que o resto do serão foi agitado, o primeiro quiz correu uma bosta, os gajos do clube de snooker puseram-nos for a sob falsos pretextos e não posso negar que, ao descer as escadas não pensei que a porta da fé não se fosse abrir e não estivesse lá o velhote de braços estendidos. Tal não aconteceu, e a segunda parte do quiz, improvisada numa esplanada ali perto, correu lindamente.

Moral da história: Não reneguem a fé no primeiro andar, quando no prédio têm outros assuntos a tratar.