Eu, o não poeta

Tenho com a poesia uma relação difícil.

Reconheço nela todas as virtudes da escrita, admiro a arte daqueles que nela bem navegam mas, até ver, consumo-a sempre em pequenas doses racionadas, como que a evitar um possível enjoo que nunca acontece.

Gosto dos jogos de palavras e sentidos, das narrativas não-lineares, da construção rítmica e traçado por vez ausente, mas depois fujo dela por não me oferecer aquilo que me cativa na prosa, mesmo que às vezes não consiga bem explicar o que é. Gostos, aquele escudo universal que diz tudo não dizendo nada.

E isto trata-se, é claro, da perspectiva enquanto consumidor. Enquanto produtor de linhas e letras coordenadas para sugerir algum sentido, sinto-me sempre um urso a barrar-se de mel antes de ir visitar abelhas quando arrisco algo com essa estrutura. Não é o meu campo, a minha batalha e posso ter as armas que os outros usam, mas não saberia dizer como se usam ou usá-las para delas tirar proveito. Linguagem poética, pela sua abrangência pode ser muita coisa, mas poesia é uma porta bem definida nesse edifício e só lá deve entrar quem não pretenda fugir à procura da saída.

Como tal, esqueçam futuros sonetos, a pesca aqui é outra. Agora só é preciso ir comprar uma cana.

One piada hit wonders

O conceito de one hit wonders é, normalmente,  associado ao mundo da música. Trata-se de um fenómeno curioso e triste ao mesmo tempo de pensar que numa carreira toda dedicada a algo, só se safou um título a nível de sucesso. Bem, pode sempre dizer-se que ter um sucesso é melhor que não ter sucesso nenhum, mas não sei se o sabor efémero do sucesso não deixa um travo mais amargo para tudo o que vem a seguir.

E isto não se aplica só a música pop de trazer por casa, se estivéssemos a falar de ópera era estar a dizer que o Mascagni e o Leoncavallo só produziram uma ópera de real sucesso, quando tal não é verdade, apesar de também não ser mentira, especialmente para quem como eu só tem um conhecimento superficial da área.

Aplicando transversalmente o conceito a coisas mundanas, penso naquelas pessoas que se esforçam imenso por ter piada. Não me refiro às que são naturalmente engraçadas ou às que sabem tirar partido de certas situações para fazer humor. Falo das pessoas que, não sendo bafejadas por esse dom (e fazer rir da melhor forma, é um dom), insistem, insistem, disparam, disparam, tentam, tentam…

…até que um dia, por alguma conjugação de efeitos, têm uma tirada, participam num momento em que conseguem ser bem sucedidos. Numa análise racional, toda a gente à volta, incluindo essa pessoa, sabem que aquilo não se vai repetir, quanto muito terá o carácter cíclico de um cometa Halley, mas desfrutam do momento e seguem com a sua vida.

Já o autor da piada, preso nesse loop, tenderá a tentar replicar esse momento, redescobrir os ingredientes mágicos, na esperança de voltar à alquimia do humor. E falhará monumentalmente, porque uma boa piada repetida por alguém sem dotes humorísticos, é como peixe cozido reaquecido no microondas – a magia não vai acontecer.

O homem da máscara de fdx

Tens um filho com 2 anos – é o maior. Tens um filho com mês e meio – é o mais pequeno

O maior resiste à epidemia de varicela na escola, por altura do nascimento do irmão – é ainda maior. Um mês depois, já não havia sequer avisos na escola, toma lá varicela – continua a ser o maior, mas agora é o maior às pintas.

O mais pequeno e a mãe emigram, nem sequer deu para acenos dramáticos à janela. Curioso como os telemóveis que tantos dramas criam, também os ajudam a apagar de vez em quando.

Uma semana depois o maior às pintas já está apto para regressar às lides. A mãe e o mais pequeno continuam a monte. Porquê, perguntará o leitor incauto que veio apanhar ar puro na janela da net, já sufocado por tanto fumo mediático? Porque eu, o pai, não tive qualquer doença infantil, e após uma semana em contacto com o maior às pintas não tendo qualquer sintoma, poderei no entanto estar a incubar a dita cuja, sendo que a doença se pode propagar antes de se manifestar visivelmente.

Faço análises, tanto para imunidade, como para infecção actual. 3 a 5 dias úteis de espera, mais uma semana de cela familiar. Trabalha-se remotamente, faz-se raids ao local de trabalho, com sino tipo leproso. Se for imune, por obra do demo, maravilha, se não tiver contágio não sendo imune, é milagre e se tiver infectado é uma merda, a quarentena estica-se e vou ter que ir sofrer sozinho para um canto.

Então e a vacina? A vacina não previne, apenas minora efeitos e, como tem inoculação através de vírus vivo, prevê mais 6 semanas de afastamento de grupos de risco, incluindo recém nascidos. Portanto, a escolha está feita, é sofrer que nem um cão ou adiar até à altura em que vá sofrer que nem um cão, possivelmente a par do mais pequeno.

Tanto drama familiar, piruças? Tanta coisa por doenças de criancinha, bubu? Nada disso, trata-se de usar combustível doméstico na prosa, já que o há de sobra. Não há desânimo, nem sequer maldições do destino, afinal de contas os pequenos maks não apareceram à porta deixados numa cestinha. Foram fruto de decisões e riscos pseudo-ponderados, mesmo que por agora cada comichão que sinto me pareça um prenúncio do Inferno da Coceira, que estou certo não ter sido abordado por Dante, mas que lhe daria muito que dar ao dedo.

Uónabi

Vivemos numa era em que cada vez se escreve mais para dizer cada vez menos, conjugada com a era em que o poder da imagem e da sugestão é mais importante do que a realidade dos factos.

Isso gera um lote de Frankensteins deliciosos, mistos de escrita e imagem que parecem vindos de universos diferentes, ambos vazios mas plenos de intenção, prosa de luxo em posts de lixo, fotos épicas onde por detrás da fachada tudo é pouco. Não é condenável, é quase um estilo artístico, uma corrente em que todos nós pintamos quadros surreais pseudo-realistas das nossa vida. A não ser que acreditemos em tudo o que vemos e aí, a condenação cai sobre nós e o Nobel da Ingenuidade ainda não é atribuído.

Lembrei-me agora de Max Weber, dos meus tempos de faculdade. Ficaria bem a analogia e o pedantismo da referência intelectual, mas agora tenho de ir comprar sílica para o areão dos gatos.

 

Bovino

O computador, telemóvel, tablet, seja lá o que for, devia disparar uma selfie automática quando descobrimos que há um ficheiro que acaba de nos tramar a vida ou o sistema gera um erro que nos deixa de quatro a carregar em botões com ar bovino.

Quando um dia conseguíssemos rir dessa foto, era sinal que o trauma já estava superado.

Agora vou continuar a ruminar a olhar para um Word que se transformou num Without Words em questão de segundos.