O que diz o teu bardo?

‘Barry White, saved my life’

Por mais anos que passem, os dizeres dos Fun Lovin’ Criminals constarão sempre do mix utilizado em dado momento para fechar os olhos, colocar os phones e fingir que não existe mundo para além do meu pensamento.

 

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O cu dos últimos dias de verão 

A oportunidade de ir à praia em Setembro traz-nos momentos inesquecíveis, amorosos e, por vezes, horripilantes.
Por um lado, para muitos o verão já acabou e a sensação de estarmos numa praia que parece só nossa, é de facto muito boa. Por outro lado, nada é mais ternurento que ver um casal de velhotes a chegar à praia ao mesmo tempo que nós para projectarmos um futuro 30 anos mais à frente e, por instantes, pensar ‘Será que isto vai ser assim lá mais à frente?’.

Mas é então que o velhote deixa a velhota a armar as 54 peças que compõem o seu espaço de veraneio, da cadeira ao tapa-vento, ao suporte para isto e para aquilo. Ficamos a segui-lo com o olhar, enquanto se dirige para o mar com ar resoluto. Impressionante, nem o mar algo revolto parece deter o seu entusiasmo – dá os primeiros passos e, com água pelos tornozelos, sente o fresco da maré a encher.

Volta-se então para terra e nessa altura pensámos que fosse saudar ou chamar a companheira. Uma saudação arrojada, uma vez que o passo seguinte foi baixar os calções de banho. Lá se foi o lirismo.

Com uma flexibilidade invejável, o velho dobra-se então todo para a frente, ficando uma posição que pode ser descrita como ‘cu para o mar, queixo para a terra, à espera da onda-supositório’. E em seguida, o horror, o horror em forma de caganeira brutal, que tenho dúvidas que o meu subconsciente consiga apagar sem esfregar muito. Assim, ali, sem filtro, com gente a passear à frente e nós em modo prisioneiros do momento.

Terminado o serviço, nada traz o lirismo e a jovialidade de volta como umas chapadinhas de água fresca no rabo. Já se escreveu poesia com pior enredo.

O mar fechou para nós depois disto e, até ordem em contrário, o paraíso da praia em Setembro terá sempre um cantinho de Inferno, onde o Diabo de cu espetado mancha para sempre o meu imaginário.

A propósito de mau perder

O post anterior poderá ter sugerido, de forma ‘ligeiramente’ exagerada, que não sei ganhar. Isso é falso, porque por saber como ganhar é que ninguém joga Monopólio comigo. Admito, no entanto, alguns excessos nas comemorações que levam à vitória final, mas toda a gente sabe que isso é perdoado aos grandes vencedores.

Contudo, a bem da coerência, sou também uma pessoa que, com o tempo, aprendeu a lidar com a derrota nas escassas vezes em que isso acontece. Por isso, este é um conjunto de situações extintas:

Nunca mais se verá uma criança enraivecida a atirar um baralho de cartas à mãe depois de um contestado jogo de bisca.

Nunca mais se verá um puto vítima de batota a usar uma pedra da calçada para repor a verdade na testa do canalha opositor.

Nunca mais se verá um treinador de basket a dizer a um adolescente que da próxima vez que se puser a gritar com os colegas de equipa o põe no banco, apenas para ver isso mesmo acontecer um minuto depois.

Nunca mais se verá um jovem adulto a cumprimentar todos os adversários depois de uma derrota numa final disputada de um torneio de basket e depois trepar para as bancadas, onde ficará uma hora a reviver tudo até conseguir voltar ao balneário acalmar-se com um duche de água fria.

Nunca mais se verá um universitário bater o recorde do mundo de insultos a um objecto inanimado, neste caso uma consola num torneio entre amigos fãs do futebol virtual.

Nunca mais se verá um adulto de barba rija a lançar olhares mortíferos a parceiros em tardes de lazer e jogos de tabuleiro, questionando a lógica e inteligência da sua estratégia.

E tudo isto nunca mais se verá porque um dia percebi que as minhas maiores vitórias surgiam quando me derrotava naquilo em que achava ser incapaz de corrigir.

 

Toda a gente odeia jogar Monopólio comigo

Há perto de 90 anos que o Monopólio faz ou fez parte da diversão de muitas famílias e grupos de amigos. Mas, se é divertimento light que procuram nesse jogo, estamos a falar de famílias e amigos parvos. O jogo é sobre arruinar os outros, enriquecendo pelo caminho e, nessa matéria e nesse quadradinho, poucos são crápulas tão bem sucedidos como eu. E ninguém gosta de lidar com isso durante umas horas.

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A verdade é que vivemos num mundo em que os actores de método são louvados pelo seu trabalho a encarnar e viver personagens durante meses a fio se tal for necessário, sem quebrar o papel. Existem cenas e jogos fofinhos de role-playing, first person games em consolas, gente que adora cosplay e se veste como os seus personagens favoritos de ficção. É tudo bonito, a malta diverte-se imenso, mas chegas a um tabuleiro de Monopólio, encarnas um wannabe magnata do imobiliário com ligações à banca e poucos escrúpulos e a tua família e amigos viram-te as costas.

O primeiro factor que gera fricção tem que ver com o facto de muita gente ser incapaz de separar o jogo da realidade. Borrifei se a minha mãe não tem dinheiro para sair da prisão, se a minha irmã já não tem mais nada para hipotecar ou se a adorável mãe dos meus filhos acha que lhe estou a fazer a folha ao investir tudo em hotéis quando ela está prestes a entrar nos meu terrenos. Para mim, naquele quadrado não há relações para além das financeiras e imobiliárias. Queres contestar isso? Visita-me num dos meus resorts na zona verde e paga antes de debatermos o assunto.

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O segundo aspecto são ‘as regras’ – se vives num mundo real, sabes que as regras são uma batalha entre o que é e o que devia ser – não é por haver um livrinho com coisas numeradas que signifca que não existem inúmeras áreas cinzentas. Eu vivo nas entrelinhas, mais do que regras entendo a coisa como ‘linhas orientadoras’ e toda a gente sabe que boa parte das fortunas não se fizeram a respeitar sempre as regras. ‘Ah, é o que está nas regras’ é desculpa de gente sem imaginação, gente audaz diz ‘Ha ha, se não está nas regras dá para fazer’.

Terceiro aspecto –A moralidade de encher chouriços – não entendo porque há tanta gente que leva a mal quando gozo o prato de as estar a levar à falência, oferecer-lhes notas de 20 para pelo menos não dormirem na rua, ir buscar pão à cozinha para lhes levar à prisão ou criar ‘zonas de morte financeira’ em que só um milagre dos dados os salvará da miséria, enquanto finjo fazer voodoo aos dados. Meus amigos, o objectivo é a falência, não é a complacência e o sentido de justiça, se não gostas vai jogar Pictionary e desenhar ovelhinhas ou o conceito de tristeza.

 

Quarto factor – Confiança nos bancos – Vivemos num mundo em que a banca nos fornica de várias maneiras possíveis e impossíveis e ainda nos deixa a apanhar os cacos das suas brincadeiras. Mas não, vamos para o paraíso do Monopólio fingir que a banca cumpre com tudo e não falta com nada – se for eu a mandar, podem crer que não é assim. A banca é para desfalcar, fazer investimentos de risco, funcionar à margem da lei e brincar com a vida dos jogadores. Caso contrário, que ensinamentos estamos a dar às crianças e a adultos infantis?

E, por fim, a quinta cláusula – Se vais jogar comigo, não desistes, aprendes a perder mesmo que estejas o tempo todo a dizer que eu não sei ganhar. A cultura da desistência tem muitos adeptos, as pessoas não se comprometem com nada e, aos primeiros sinais de adversidade, amuam, dizem ‘Ah, já não quero’ e vão jogar Scrabble à procura de palavras de incentivo e auto-ajuda. Aqui não há nada disso, a desistência tem uma penalização financeira REAL, não do Monopólio (uma ‘jóia’ definida previamente), se estivermos a falar de crianças em vez de dinheiro aceito salvaguarda de brinquedos, tempo a ver desenhos animados ou bolachas. O conceito de bancarrota é para aprender de perto e eu não abdico disso.

O cenário é claro, poucos ainda se dispõem a jogar comigo e a verdade é que hoje em dia já é raro ter muito tempo para lições de vida num tabuleiro de Monopólio. Mas a verdade é que, de quando em vez, bate aquela saudade de despertar o agiota déspota empreiteiro que há em mim, cavar alicerces e sepulturas para os meus adversários nas mesmas propriedades, lançar as tiradas mais jocosas que abatem mais o alento adversário do que a Taxa de Luxo e ficar numa mesa a contar notas e olhares furiosos e não saber quais são mais numerosos.

Sou execrável a jogar Monopólio e só espero que o meu ar afável ainda consiga enganar alguns da próxima vez que aparecer com a caixinha na sala.

 

Princípios sobre o fim

Grande série, grande enredo, grande originalidade na abordagem ao tema mais funesto de sempre, a morte e os seus derivados. Estou a dever-lhe uma visita, apesar da fritadeira tortuosa que lá para o meio me levou a questionar a lealdade à série – não me chocam séries com base em sofrimento, aborrecem-me conteúdos feitos para explorar o sofrimento do espectador de forma continuada e gratuita (Von Trier, estás a ouvir?).

Oiçamos Thomas Newman.

Este genérico é, gráfica e musicalmente, de uma sintonia perfeita com o espírito da série. Não vou para aqui começar a desbaratar semiologia de vão de escada, mas no que a esta música diz respeito, Thomas Newman – o seu compositor, viu o seu trabalho reconhecido com distinções de topo. Valha-lhe isso, porque este senhor já foi nomeado 14 vezes para o Óscar de Melhor Banda Sonora e ganhou cerca de zero vezes.

Talvez isso lhe seja indiferente, desconheço em absoluto, mas sou apreciador de quase todas as bandas sonoras que criou, acima de tudo pelo seu tom. A música é, a meu ver, ‘a pele’ do filme, aquilo que o reveste e lhe dá boa parte do lado sensorial que absorvemos e Newman parece-me sempre capaz de dar o sentimento necessário aos seus filmes, sem ser apenas uma bolacha mole recheada de emoções exageradas.

Não éo  único, claro está, mas eu também sou de fases e deu-me para revisitar uns quantos dos seus temas esta semana. A ele voltaremos lá mais à frente.

Estranhos ruídos, na selva de Lisboa

Domingo, 5.45 da manhã.

Um otário, vá lá, a bem da literatura chamemos-lhe um homem, começa a subir uma pequena encosta de Monsanto, do lado das Twin Towers, junto a Sete Rios. Não está a fugir da polícia e não se trata de uma forma estranha de cumprir promessas, simplesmente é aquela a única hora de compromisso entre a sua dinâmica familiar e a vontade de tirar a ferrugem da corrida pelos trilhos.

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Eis o velho moinho, impávido e sereno perante ruído e personagens estranhos.

Mas, voltemos ao percurso do maluco, vá lá, chamemos-lhe aventureiro a bem da literatura. Ele escolheu aquela encosta para começar lentamente porque, subida aqui e subida ali, ela vai dar a um velho moinho em ruínas. E, lá chegado, com a desculpa de tirar uma ou duas fotos ao amanhecer na cidade, certamente que se ganharia um minuto para recuperar o fôlego.

Determinado, o paquiderme, vá lá, chamemos-lhe o colosso a bem da literatura, trepou pelo lado mais inclinado da encosta e, lá chegado, respirou fundo. Eram 6.03 da manhã e naquela zona podia desligar a iluminação do frontal, pois a clareira já deixava ver a cidade e o amanhecer lá ao fundo. Tirada uma foto, deu conta de um ruídos estranhos, mas não os conseguiu situar. Tirou outra foto e, novamente ouviu ruídos, não vinham do lado da mata atrás de si, daí só vinha silêncio, vinham sim de uma zona indistinta junto à cidade.

Foi aí que o totó, vá lá, chamemos-lhe ingénuo a bem da literatura se apercebeu – os ruídos vinham da zona do Zoo de Lisboa. Eram urros e bramidos indistintos mas ritmados, de animais diferentes. Não pareciam propriamente em pânico, mas tudo aquilo soava estranho, o próprio despertar do dia não trazia propriamente cores de verão e essa mistura aplicada a quem tinha poucas horas de sono gerou uma ligeira inquietação. Aguardou mais uns segundos e, novamente a sequência descoordenada – primeiro pareciam elefantes, depois leões, ursos e sabe-se lá mais o quê.

(O nosso camelo digital, vá lá, chamemos-lhe cronista audiovisual a bem da literatura, filmou 30″ durante os ruídos mas basicamente só se ouve barulho da estrada que há pelo meio. Achei por bem substituí-lo pelo vídeo presente, para dinamizar o efeito dramático)

Depois, o silêncio.

Foi aí que o nosso pateta alarmado, vá lá, chamemos-lhe herói inquieto a bem da literatura, achou que o melhor era seguir caminho e pensar nas forças da natureza e se aquilo era algum presságio para além do óbvio – levanta-te para correr a horas estranhas e coisas estranhas ouvirás ao longo da tua jornada. E depois enfiou-se mata fora, ligando de novo o frontal e fazendo as contas aos dragões, fadas e unicórnio que, a adivinhar pelo início da corrida, iria encontrar no resto do seu percurso.

Nem um nas contas finais. Apenas um velho com um fato de treino dos místicos anos 90, que o saudou à saída de uma curva com um meio épico, meio assustado ‘EHH, Caralho, bom dia!’. Pouco fantástico, mas deveras assertivo.