Análise ultra racional de publicidade – Johnny Depp em Dior Sauvage

Os pré-rolls do Youtube trouxeram-me de novo às vistas o anúncio do perfume Sauvage da Dior com o Johnny Depp. Sabendo obviamente que a publicidade, especialmente em perfumes, é muito mais a puxar aos sentidos do que à lógica, devo dizer no entanto que este spot em particular parece ter sido construído a partir de uma sessão de consumo de peyote ou outra substância recomendada por alguns índios das planícies.

Ainda assim, dei-me ao trabalho de reconstruir o guião que certamente deu origem ao anúncio. É ler primeiro, para que ver depois faça sentigo.

‘Dior Sauvage’

Depp dá um concerto, mas a audiência é fraca e o armazém está quase vazio.

Para complicar, enquanto assassina um tema de Ry Cooder, começa a sentir calores e suores frios ao mesmo tempo. É melhor ir andando, que encontrar a saída de óculos escuros não é fácil.

Tentando arejar numa voltinha de carro, o desconforto não passa. Depp procura uma casa de banho, seja onde for, passando inclusive por umas obras, mas nem uma daquelas cabines do cocó se avista. Será que vai dar para aguentar? Ele não sabe.

Ao ver um búfalo (ou será um bisonte?), Depp engole em seco. Fumar broas naquele estado? Não devia…

Tenta acelerar, mas não vai dar mais. Há que sair da estrada e é já. Os gases já estão intoleráveis e os pássaros dão por isso. Uma pá, Depp precisa de uma pá e de encontrar o lugar perfeito. Os coiotes temem pelo seu habitat.

O melhor é começar a cavar. De repente, Depp lembra-se de um antigo ritual índio que diz que se enterrarmos um colar que estimamos, as dores de barriga vão embora. Boa ideia.

Contudo, ao tapar o buraco, Depp dá por algo que não está a ver, mas que se cheira e de que maneira. É tarde demais. Ele sente-a.

Ainda assim, Depp está está tranquilo e contempla o horizonte. Ele tem Dior Sauvage e isso abafa qualquer cheiro, até de diarreia. E isso, meus amigos, é mágico.

 

 

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O azar da sorte

Por um lado há um conforto egoísta de estar aqui em Lisboa e não ver fumo e fogo sem ser nas caixinhas de pânico e tristeza que um gajo tem à volta. Por outro, a mera sorte geográfica não toca a todos e estar em Lisboa pode não querer dizer nada quando família e amigos lutam pela vida e por tudo o que lhes resta.

Vejo muitas opiniões, leio muita coisa, culpabilizações e inércia, falta de capacidade e de noção, tudo isso alimentado-se do fogo como este se alimenta da vida das pessoas.

 

O verde é a cor da esperança, mas o verde está a ficar cinza com a esperança toda a esvoaçar por entre os dedos.

Tal como há o sentimento de vergonha alheia, não sei como definir esta sensação de impotência alheia, perante tanta gente que podia ser eu e os meus, não fosse a sorte de eu estar aqui em Lisboa e não algures a ver a minha vida consumida em chamas.

 

De volta ao ginásio da leitura

Confesso, já tinha saudades dos momentos em que tudo fica em pausa enquanto se mergulha nas páginas de um livro. Já andava há algum tempo a cultivar culpas.

A culpa é dos putos.

A culpa é de acordar cedo para correr e depois ao fim do dia o cansaço é muito.

A culpa é de passar o dia a escrever.

A culpa é dos telemóveis e da tecnologia que nos consome.

A culpa é haver tanta coisa em que colocar as culpas.

Mas chega de desculpas.

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A mudança de instalações no trabalho, por vários aspectos menos bons que tenha, trouxe novas e agradáveis oportunidades para ler, mas ler à séria, agarrando no livro e só largar a coisa depois de umas simpáticas páginas de avanço.

Seja no Metro, em que agora disponho de um período de 10-12 minutos para cada lado ou fazendo render a hora do almoço, enquanto o outono ainda se disfarça de semi-verão e o facto de estar a dois passos do rio torna tudo mais airoso. E a verdade é que fico com um ar super cool sentado num banco de frente para o Tejo a ouvir música e a ler. É um boost erudito.

Portanto, prepara-te Philip Roth mais o teu ‘A Mancha Humana’ – dá-me ideia que as tuas quase 400 páginas não vão durar muito. E não te estejas a rir, David Foster Wallace, a tua ‘Piada Infinita’ não se vai safar duas vezes.

 

Este marmanjão já está a trabalhar para voltar a ficar todo mental fit.

Mudam-se os cenários, não se mudam as cenas

Sexta-feira foi o nosso último dia no edifício onde trabalhei nos últimos cerca de 10 anos. Mais do que a vista (que era boa) ou da centralidade (que era óptima), não a perda dessa rotina habitual que me chateia. Afinal de contas, o destino da mudança não é trágico, as instalações novas têm boa pinta e irei tentar certamente arranjar forma de contornar o facto de não estar tão perto de casa.

O que me chateia é o facto de se confundir mudança de instalações com novos capítulos, quando pouco se faz para mudar a história.

Tinta fresca e cadeiras a estrear não chegam. E por cá, gosta-se tanto de inaugurar cenários novos que muitas vezes nos esquecemos que sem escrever de novo as cenas, a peça continuará a ser a mesma e isso não é necessariamente sinónimo de sucesso.

Ouro dos tolos, quem o não tem?

Quando estou em modo relax, um clássico que me deixa a navegar de olhos fechados é este:

Não sou um devoto de Stone Roses, mas têm faixas pelas quais tenho um carinho que sobrevive ao passar do tempo. Mas, sem entrar em debates musicais, a versão extensa desta música, deixa-me, sempre que me apetece, fazer um joguinho, brincando com o seu título.

Basta pôr-me a pensar em amigos, colegas ou pessoas com quem privo e tentar identificar qual será o seu ‘ouro dos tolos’, ou seja, aquilo que veneram/cobiçam/ambicionam/exibem, convencidos de que tem grande valor, quando na realidade vale cerca de zero, perante uma avaliação distanciada. Confesso que às vezes adormeço no processo, se a música estiver a tocar em condições propícias para esse efeito, o que é óptimo, é sinal que não estou de forma alguma a perder tempo.

E sim, todos temos o nosso ‘ouro dos tolos’, alguns em versão montanha, outros em versão montinho, mas ele anda por cá. Faz parte da nossa capacidade de auto-ilusão.

Qual a penitência adequada para quem fala ‘à bebé’?

‘Falar à bebé’ (isto é, reduzir a nossa capacidade mental ao ponto de falar de forma básica com voz fininha, voz de desenho animado e/ou dizer tudo muito devagar, com a boca e os olhos muito abertos, encharcadinhos em diminutivos) não é um flagelo ao nível da fome, mas é uma tragédia que passa ao lado da atenção que lhe é devida.

Antes de ter filhos considerava-me um Torquemada nesta matéria – se falavas à bebé, fogueira contigo e ficavas para sempre marcado na minha lista. Mas, com dois rebentos lá em casa, tudo a jogar nos sub-3 anos, fui obrigado a rever o código penal, com atenuantes e excepções, nas quais obviamente me incluo à bruta. Vejamos o enquadramento legal como ele ficou, actualmente:

Falar à bebé com bebés
Comecemos por afunilar a definição de ‘bebé’ – no meu livro, com uma laaaarga margem de tolerância, pode ir até aos 4-5 anos. Entrar com o filho na escola primária a falar-lhe assim é criar-lhe cicatrizes mentais piores que o bullying. Dentro do patamar previsto, é tolerável o acto em doses moderadas, tentando não falar mais à bebé que o próprio bebé. Em casos de exagero, seja em caso próprio ou de familiares e amigos, a recomendação são vergastadas com raminhos de oliveira, em acto de contrição.

‘Vou continuar a rir-me até ele se calar’

Falar à bebé com animais
Neste patamar, a tolerância é muito mais escassa, se boa parte dos animais de companhia atinge a idade adulta numa questão de meses, o mesmo devia acontecer com a nossa linguagem com eles. Em caso de ofensa repetida, recomenda-se o envio para uma jaula de leões famintos com bifes crus presos ao pescoço.

Falar à bebé entre membros de um casal
Situação extremamente perigosa, unicamente tolerada se os membros do casal estiverem a sós e sem ninguém por perto a distância audível. Nesse caso, se se querem tratar como bebés ou, simplesmente, vestir-se de bebé e receber miminhos, cada um sabe de si na intimidade. Em público, é deveras constrangedor e a penalização mínima é uma coleira eléctrica correctiva programada em intensidade média-alta. Se tiverem um perfil dividido nas redes sociais, muda para a potência máxima.

Falar à bebé com colegas de trabalho
A não ser que trabalhem num jardim de infância, despedimento com justa causa e obrigação de beber 2litros do ‘belo’ café de máquina de seguida. Se se descobrir que o colega com quem fala é na realidade a segunda metade de um casal oculto, aplica-se a coleira eléctrica na fila para a entrega dos papéis de desemprego.

Falar à bebé com extraterrestres/aparições/figuras mitológicas
Recomenda-se, caso se detectem casos destes, que as pessoas em causa sejam acarinhadas docilmente, um abraço é sempre bom, digam que as compreendem e que aceitam plenamente que elas estão a ver quem dizem que estão a ver. Depois é meter-lhe qualquer coisa numa bebida que as faça adormecer e chamar as autoridades competetentes. Se as pessoas em causa jurarem ter uma relação íntima com um ET, uma aparição ou um semi-deus, é tentar colocar a coleira eléctrica enquanto eles estão adormecidos.

Falar à bebé com objectos
Isto é só estúpido, não merece punição, apenas pena.

Em casos omissos neste excerto, por favor indiquem-nos para que se possa ter o devido enquadramento legal apropriado. Nem todas as pragas são controláveis, mas aqui o esforço de todos conta.

Há música a mais para os meus ouvidos

Eis como me sinto quando gente à minha frente debate bandas de sub-nicho de bandas das quais nunca ouvi falar e, se peço para me enquadrarem ou me darem uma banda de referência em relação ao estilo das que estão a falar, me respondem com outros nomes de bandas que desconheo ao nível das primeiras. E com ar de quem respondem a um primata com algum atraso civilizacional.