Análise ultra racional de publicidade – Johnny Depp em Dior Sauvage

Os pré-rolls do Youtube trouxeram-me de novo às vistas o anúncio do perfume Sauvage da Dior com o Johnny Depp. Sabendo obviamente que a publicidade, especialmente em perfumes, é muito mais a puxar aos sentidos do que à lógica, devo dizer no entanto que este spot em particular parece ter sido construído a partir de uma sessão de consumo de peyote ou outra substância recomendada por alguns índios das planícies.

Ainda assim, dei-me ao trabalho de reconstruir o guião que certamente deu origem ao anúncio. É ler primeiro, para que ver depois faça sentigo.

‘Dior Sauvage’

Depp dá um concerto, mas a audiência é fraca e o armazém está quase vazio.

Para complicar, enquanto assassina um tema de Ry Cooder, começa a sentir calores e suores frios ao mesmo tempo. É melhor ir andando, que encontrar a saída de óculos escuros não é fácil.

Tentando arejar numa voltinha de carro, o desconforto não passa. Depp procura uma casa de banho, seja onde for, passando inclusive por umas obras, mas nem uma daquelas cabines do cocó se avista. Será que vai dar para aguentar? Ele não sabe.

Ao ver um búfalo (ou será um bisonte?), Depp engole em seco. Fumar broas naquele estado? Não devia…

Tenta acelerar, mas não vai dar mais. Há que sair da estrada e é já. Os gases já estão intoleráveis e os pássaros dão por isso. Uma pá, Depp precisa de uma pá e de encontrar o lugar perfeito. Os coiotes temem pelo seu habitat.

O melhor é começar a cavar. De repente, Depp lembra-se de um antigo ritual índio que diz que se enterrarmos um colar que estimamos, as dores de barriga vão embora. Boa ideia.

Contudo, ao tapar o buraco, Depp dá por algo que não está a ver, mas que se cheira e de que maneira. É tarde demais. Ele sente-a.

Ainda assim, Depp está está tranquilo e contempla o horizonte. Ele tem Dior Sauvage e isso abafa qualquer cheiro, até de diarreia. E isso, meus amigos, é mágico.

 

 

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3652

Não sou, ao contrário do meu pai, um homem de números. Sempre fui pelas letras mas, por estranho que possa parecer, acredito que há números que merecem uma história, assim como há histórias que crescem pelo meio de números.

Por isso, 3652 podia ser o número mais abstracto do mundo ou, sendo esse mundo o nosso, soma da nossa história em conjunto. Um 3652 feito, assim sendo, de muito regabofe e riso, algum choro, conversas intermináveis, discussões pontuais, opiniões fortes, gelados (muitos gelados), viagens (muito menos que gelados, mas igualmente devoradas até ao fim), projectos a dois, projectos a três e, veja-se o arrojo, projectos a quatro.

A futurologia pede uma bola de cristal e nós trocámo-la por dois gatos. Por isso, façamos a festa e as festinhas sem tentar saber como vai ser o 3653, apenas com a certeza de que vai começar cedo e com algumas olheiras.

Enquanto este 3652 ganhava forma, puxaste por mim, disseste-me por vezes o que eu não queria ouvir mas precisava e outras tantas vezes exactamente o que eu precisava de ouvir e não queria. Não sendo matemático, não sei qual é ao exacto a nossa fórmula, mas o teu positivo compensa o meu negativo e as minhas constantes adaptam-se às tuas incógnitas. Ainda bem que não estamos juntos para fazer número. Não sei se o provérbio algum dia dirá ‘Em casa de filhos de pais divorciados nunca existirão planos fechados’ mas um 3652 deste nível pede outro 3652 pelo menos igual, para depois falarmos de um mais imponente 7304.

Sou, como disse, uma pessoa de letras e não precisas que te faça um desenho para explicar tudo o que o nosso 3652 significa para mim. Até porque para desenhar, a bem das nossas vistas é bom que o faças tu.

O burro, a tasca e o viajante

Aborrecido com nuances da realidade, dei por mim a subir a escadaria que dá acesso à terra da fantasia. Não a julgava assim, tinha esperanças de algo mais…fantasioso. Mas não, escadas normais, de unicórnios nem sinal, fadas com propostas nem vê-las e os ogres devem estar de férias no início de Julho. Tendo tempo, resolvo dar uma volta.

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Nem 50 passos tinha dado quando avisto um burro, mas dos assumidos. Começo a suspeitar que já poderei estar na terra da fantasia, pois o burro guarda a porta de uma tasca vazia e, perante tal cenário, não tenho outra hipótese senão ir ter com ele.

O que se passou a seguir não posso reproduzir de modo fiável sem colar selos na minha caderneta de doido. Portantos, fiquemos pela descrição geral – o burro barrou-me a entrada, mas foi eloquente na razão porquê, afinal de contas não tinha qualquer motivo para me fazer a mim passar por aquilo que ele já era. Explicou-me que na terra da fantasia, homens não entram em tascas, estão reservadas a animais comuns, nomeadamente burros. Quando lhe perguntei qual a razão de tal regra, a resposta foi simples – os animais precisam de sítios para beber e esquecer a convivência com os humanos, deixá-los entrar seria perverter a lógica.

Acatei, pensando que discutir com burros nunca levou a lado nenhum, especialmente quando falam melhor que nós. Embora continuasse com sede, achei que já tinha digerido a minha dose necessária de fantasia e voltei para a escada. Ainda ouvi o burro queixar-se ‘Só me faltava mais um gajo a chatear-me pela manhã, como se ser burro não fosse razão que chegue para beber logo de manhã’.

Acelerei o passo rumo ao mundo real, com uma estranha saudade de convívio com burros, mas daqueles não assumidos.

Filmes social snuff

Tive hoje a oportunidade de testemunhar um momento muito bonito. Uma pessoa simples, mas carismática, todos os dias foi conquistando os que a rodeiam com os seus pequenos gestos, a sua maneira de ser e a vibração positiva que nem sempre é fácil de encontrar todos os dias.

De forma desafectada, as pessoas à sua volta resolveram unir-se para a apoiar numa situação complicada que vai enfrentar. Sem obrigação, sem esquemas, basicamente sem merdas. E foi tudo em registo surpresa.

Chamada a uma sala, sem saber do que se tratava, perante um tamanho gesto de bondade, fez o que as pessoas com coração costumam fazer, chorou.

O resto não é um choque, mas faz parte da realidade actual, se já não é fácil ter as nossas emoções à tona perante 20 ou 30 pessoas, imagine-se que metade delas estão a espetar o telemóvel na nossa cara, filmando reacções.

Que uma ou duas, designadas, captassem o momento, para depois se poder reviver a coisa com mais calma, eu compreendia. Em número tão extenso faz-me pensar que o nosso foco varia tanto, que para muitos é difícil relaxar e, simplesmente, saborear um momento especial.

Nada disto apaga a bondade do gesto, simplesmente me põe a pensar sobre o valor e aquilo que tiramos ao máximo (ou não) das coisas que vivemos em directo.