Prazos na Rua da Betesga

Os prazos são como aquelas passagens estreitas por onde determinados condutores e seus carros tentam passar. As pessoas mais sensatas tentam avisar que não dá, que não é possível, que é demasiado apertado e outros juram que sim, mas normalmente nunca são os donos do carro ou, quando são, é malta cega pela pressa e pela falta de bom senso, diz que acha que é só um jeitinho.

E, pouco depois, dá merda.

Xadrez de portas

Há quem invista tempo e intelecto no xadrez, enquanto expoente máximo da estratégia lúdica. Eu prefiro a estratégia lúdica e um pouco menos intelectual de abrir/segurar/largar portas enquanto desporto de convivência cívica.

Não sei interpretar uma defesa siciliana ou tirar o devido benefício de um roque, mas sou um exímio executante da regra dos dois segundos de porta na mão antes de a largar na tromba de alguém.

Não nasci para grão-mestre, mas também não ando por cá para ser porteiro.

O homem da máscara de fdx

Tens um filho com 2 anos – é o maior. Tens um filho com mês e meio – é o mais pequeno

O maior resiste à epidemia de varicela na escola, por altura do nascimento do irmão – é ainda maior. Um mês depois, já não havia sequer avisos na escola, toma lá varicela – continua a ser o maior, mas agora é o maior às pintas.

O mais pequeno e a mãe emigram, nem sequer deu para acenos dramáticos à janela. Curioso como os telemóveis que tantos dramas criam, também os ajudam a apagar de vez em quando.

Uma semana depois o maior às pintas já está apto para regressar às lides. A mãe e o mais pequeno continuam a monte. Porquê, perguntará o leitor incauto que veio apanhar ar puro na janela da net, já sufocado por tanto fumo mediático? Porque eu, o pai, não tive qualquer doença infantil, e após uma semana em contacto com o maior às pintas não tendo qualquer sintoma, poderei no entanto estar a incubar a dita cuja, sendo que a doença se pode propagar antes de se manifestar visivelmente.

Faço análises, tanto para imunidade, como para infecção actual. 3 a 5 dias úteis de espera, mais uma semana de cela familiar. Trabalha-se remotamente, faz-se raids ao local de trabalho, com sino tipo leproso. Se for imune, por obra do demo, maravilha, se não tiver contágio não sendo imune, é milagre e se tiver infectado é uma merda, a quarentena estica-se e vou ter que ir sofrer sozinho para um canto.

Então e a vacina? A vacina não previne, apenas minora efeitos e, como tem inoculação através de vírus vivo, prevê mais 6 semanas de afastamento de grupos de risco, incluindo recém nascidos. Portanto, a escolha está feita, é sofrer que nem um cão ou adiar até à altura em que vá sofrer que nem um cão, possivelmente a par do mais pequeno.

Tanto drama familiar, piruças? Tanta coisa por doenças de criancinha, bubu? Nada disso, trata-se de usar combustível doméstico na prosa, já que o há de sobra. Não há desânimo, nem sequer maldições do destino, afinal de contas os pequenos maks não apareceram à porta deixados numa cestinha. Foram fruto de decisões e riscos pseudo-ponderados, mesmo que por agora cada comichão que sinto me pareça um prenúncio do Inferno da Coceira, que estou certo não ter sido abordado por Dante, mas que lhe daria muito que dar ao dedo.

Cinzas

Boa parte do país está coberta de cinzas.

A vida e as expectativas de muitos estão feitas em cinzas.

Por todo o lado, o ar que se respira carrega o peso da aflição embebida em cinzas.

Diz a lenda que a Fénix (e, em boa parte, a esperança) renascem das cinzas, mais fortes do que nunca.

Espero que sim, mas preocupa-me ver que subsiste por aí uma espécie de bicho sombrio que se alimenta de cinzas e do desespero alheio para crescer mais vistoso, mais viscoso, mais ele mesmo. E, tal como a Medusa, quanto mais olhamos para ele, mais ficamos presos aos seus tentáculos, até nos tornarmos nós próprios cinzas.

Uónabi

Vivemos numa era em que cada vez se escreve mais para dizer cada vez menos, conjugada com a era em que o poder da imagem e da sugestão é mais importante do que a realidade dos factos.

Isso gera um lote de Frankensteins deliciosos, mistos de escrita e imagem que parecem vindos de universos diferentes, ambos vazios mas plenos de intenção, prosa de luxo em posts de lixo, fotos épicas onde por detrás da fachada tudo é pouco. Não é condenável, é quase um estilo artístico, uma corrente em que todos nós pintamos quadros surreais pseudo-realistas das nossa vida. A não ser que acreditemos em tudo o que vemos e aí, a condenação cai sobre nós e o Nobel da Ingenuidade ainda não é atribuído.

Lembrei-me agora de Max Weber, dos meus tempos de faculdade. Ficaria bem a analogia e o pedantismo da referência intelectual, mas agora tenho de ir comprar sílica para o areão dos gatos.

 

Infantilidade ajuda a prevenir varicela?

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Sinto-me assim e o cenário não anda longe do estado da minha sala.

Isto de ter dois filhos e nenhum deles conseguir sequer assinar o seu nome de cruz tem os seus inconvenientes. Um deles é o facto disso estar a prejudicar a minha infantilidade latente. Eu explico.

Sou um rapaz jovial, pleno de humor tonto e atitude descontraída. Mas, estando cada vez mais próximo da meia idade, já devia ter arranjado tempo para ter doenças de criança, coisa que na idade ideal para as ter não aconteceu. Nenhuma, zero, nada, só alergias e cabelo super encaracolado.

Quer isto dizer que, hoje em dia, com uma criança de dois anos com varicela em casa e outra, de pouco mais de um mês, refugiada com a mãe em casa da avó, sinto-me um tipo que faz sapateado num campo de minas.

Cuido do mini-pintas e, ao mesmo tempo, penso que cada comichão que sinto é a minha sentença para o sofrimento garantido que é gramar com varicela em adulto. Até agora nada, tirando cenários cómicos ao espelho e a tirar fotos com o telemóvel à procura de focos de comichão. Além disso, sempre que digo a alguém ‘Ah, ela saiu de casa com o mais novo’, sinto-me rapidamente perante a necessidade de adiantar logo detalhes da doença e digitalizações de atestados, porque a malta curte mais dramas familiares do que relatos de doenças infantis.

Portanto, não preciso de recorrer à minha criatividade, os meus dias de semi-clausura com uma criança às pintas que insiste que na rua é que ela devia estar, que questiona se cortei às postas a mãe e o irmão, porque eles desapareceram e monta piquetes contra a limitação de horários de desenhos animados são suficientes.

Ainda assim, tenho resistido a ir ao Google ler sobre doenças. Prefiro fazer linhas de farinha Maizena e tirar fotos ousadas no Instagram a sugerir thug life farináceo.

Façam um banho tépido em minha honra. Não vos peço mais.