O que uma mulher moderna precisa para ser feliz

Para serem felizes, as mulheres precisam de se livrar da celulite que têm e ir a um clube de sexo aprender dicas very hot com acompanhantes, para depois poderem marcar um encontro com o seu ex numa esplanada trendy e tentar livrar-se desse cancro que é viverem sozinhas. Se não resultar, sempre podem usar o que aprenderam para ganhar um dinheirinho extra para comprar uma roupinha da Moschino ou melhorar qualquer coisinha com uns tratamentos, que isso não vai lá só com força de vontade.

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Não se deve julgar um livro pela capa mas, ao olhar para esta edição da ‘Happy woman’, é difícil fugir ao que parece ser o pão com manteiga para tentar vender uma revista do género. Serão mulheres a pensar no que as mulheres gostam, homens a tentar pensar no que faz mexer as mulheres ou, simplesmente, cenas modernas que fica bem explorar em revistas, mas não passam de fogo de artifício encadernado?

 

Há música a mais para os meus ouvidos

Eis como me sinto quando gente à minha frente debate bandas de sub-nicho de bandas das quais nunca ouvi falar e, se peço para me enquadrarem ou me darem uma banda de referência em relação ao estilo das que estão a falar, me respondem com outros nomes de bandas que desconheo ao nível das primeiras. E com ar de quem respondem a um primata com algum atraso civilizacional.

O destino no voo de um saco de plástico

Esta é uma cena do filme American Beauty e o diálogo que a acompanha é envolvente e enquadra-se perfeitamente na imagem (e sim, este tema é do Thomas Newman). No entanto, gosto sempre de vê-la nesta versão, só música e o acaso do destino em forma de saco de plástico.

Para além do filme em si, será ele uma metáfora, uma réplica esvoaçante daquilo que pode ser o nosso destino nas mãos de factores que não controlamos? Ou é apenas aquilo que é, um brinquedo inanimado nas mãos da natureza?

Oiço-a frequentemente quando quero relaxar um pouco e deixar ir com o vento questões sobre as quais não tenho resposta e, se há uma boa altura para isso é sempre o eixo entre final de Julho e início de Agosto, infelizmente por motivo menos bons. Mas o futuro olha-se de frente e não com a cabeça em baixo.

A verdade é que não sou fatalista, nem determinista e, pela mesma razão que não tenho medo de andar de avião (se nada, depois de estar lá dentro, depende do meu controlo, para quê stressar) não me preocupo com aquilo cujas minhas acções não possam afectar em nada o seu desenlace. No entanto, por vezes penso no acaso das coisas e nas variáveis que podem ou não ter contribuído para a ocorrência de um evento.

Palavras como ‘sorte’, ‘azar’, ‘destino’ ou ‘fé’ assumem contextos e força diferentes dependendo de quem os utiliza. Mantendo uma mente aberta, podemos navegar pelo meio dessas diferentes forças e aceitar convicções diferentes sem nos rendermos totalmente a nenhuma. E embora tudo ista seja um processo muito lógico, perfeitamente enquadrável na minha maneira de ser, às vezes mando tudo às malvas e fico simplesmente com saudades de um amigo, saudades essas impossíveis de matar.

E, por mais ridículo que possa parecer, a ideia de um saco nas mãos do vento levado para longe de forma brusca mas, ao mesmo tempo, graciosa acalma-me o espírito.

Sem culpas.

Sem explicações.

Sem dramas.

O futuro olha-se de frente, mas não há mal em olhar para trás por um momento e suspirar um pouco pelo passado.

Princípios sobre o fim

Grande série, grande enredo, grande originalidade na abordagem ao tema mais funesto de sempre, a morte e os seus derivados. Estou a dever-lhe uma visita, apesar da fritadeira tortuosa que lá para o meio me levou a questionar a lealdade à série – não me chocam séries com base em sofrimento, aborrecem-me conteúdos feitos para explorar o sofrimento do espectador de forma continuada e gratuita (Von Trier, estás a ouvir?).

Oiçamos Thomas Newman.

Este genérico é, gráfica e musicalmente, de uma sintonia perfeita com o espírito da série. Não vou para aqui começar a desbaratar semiologia de vão de escada, mas no que a esta música diz respeito, Thomas Newman – o seu compositor, viu o seu trabalho reconhecido com distinções de topo. Valha-lhe isso, porque este senhor já foi nomeado 14 vezes para o Óscar de Melhor Banda Sonora e ganhou cerca de zero vezes.

Talvez isso lhe seja indiferente, desconheço em absoluto, mas sou apreciador de quase todas as bandas sonoras que criou, acima de tudo pelo seu tom. A música é, a meu ver, ‘a pele’ do filme, aquilo que o reveste e lhe dá boa parte do lado sensorial que absorvemos e Newman parece-me sempre capaz de dar o sentimento necessário aos seus filmes, sem ser apenas uma bolacha mole recheada de emoções exageradas.

Não éo  único, claro está, mas eu também sou de fases e deu-me para revisitar uns quantos dos seus temas esta semana. A ele voltaremos lá mais à frente.

A diferença entre um russo branco e um russo preto

Ao crescer, mais precisamente naquele patamar de jovem adulto a querer mostrar cenário através do consumo de bebidas alcoólicas quando se sai à noite, deparei-me com um problema.

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O orçamento era limitado, cerveja era coisa a que sempre torci o nariz e, no que ao vinho diz respeito, o meu gosto ainda não tinha amadurecido (verdade seja dita, o consumo de vinho por malta jovem era mais limitado a traçadinhos e afins, wine bars e adegas modernas eram coisas futuristas à altura). Como beber sumos e água era para pussies (embora reze a lenda, não faltava quem bebesse sumo de laranja e lhe acrescentasse vodka imaginário), via-me na necessidade de enfrentar a seguinte questão:

 Como conseguir esticar um orçamento reduzido ao longo da noite, consumindo bebidas brancas?

Obviamente, isso era impossível de forma sustentada, pois no limite dois vodkas já rebentavam o balanço, whisky era-me intragável e shots eram coisa para momentos específicos, não era aquele tipo de bebida que dava cenário, especialmente perante o público feminino em determinados ambientes.

A opção ‘criativa’: consumir um cocktail daqueles clássicos com nomes imponentes, a contar que o seu efeito presencial disfarçasse o facto de normalmente não haver orçamento para o segundo. Foi assim que lá vinha um Cuba Livre, um Mojito ou uma Tequila Sunrise (Caipirinhas ainda não estavam no seu auge), fugindo de cocktails mais femininos estilo Mai Tai, Daiquiri e afins. Cenas à James Bond também não pedia, porque achava que era cenário a mais, até que descobri os Russos e isso deu em tragédia.

Estando eu ao balcão numa discoteca, um tipo ao meu lado pede um Black Russian. Fico atento, vejo que leva vodka e uma substância escura que, vim a saber mais tarde, se tratava de licor de café. Um Russo, preto ainda por cima, pareceu-me uma bebida que cria impacto, especialmente porque Black Russian soa melhor que Russo Preto. E tinha aquela aura necessária para aparecer ao pé da malta de copo na mão e atitude em alta.

Claro está que não o pedi na altura mas fi-lo mais tarde e o Black Russian cumpriu o seu papel e o licor de café não atrapalhou. Pouco tempo depois, vi o Big Lebowski e conheci um dos meus ‘heróis’ favoritos, The Dude que, ironia do destino, bebia White Russians. Fui ver e a fórmula era simples, em cima do vodka e licor de café toca de colocar natas ou leite. Meu deus, que efeito, vou arrasar…

O grande problema (para além da minha fanfarronice alcoólica pelintra) foi que eu não andava propriamente a frequentar bares de topo, discotecas de elite ou locais premium em que do outro lado do balcão estivam barmen de topo. Eram discotecas comuns, com malta atrás do bar escolhida muitas vezes pelo tamanho do decote ou entre amigos do dono. E, tendo em conta o cenário, pedir uma bebida com leite/natas nunca me ocorreu como sendo uma ideia altamente arriscada do ponto de vista sanitário-lúdico.

Até ao dia, para aí o terceiro da fase White Russian, em que o que me foi servido não me pareceu bem, não me soube muito bem mas, não entendendo patavina de cocktails, para além de nomes e sensações de fachada, segui para bingo.

Dois ou três goles mais tarde, em plena pista de dança, impressionando pelo meu ritmo e pelo cocktail que já era quase trademark fui dominado por uma sensação estranha. O sacana do russo revoltava-se contra mim e, em questão de segundos, voltou ao sítio onde devia ter ido parar logo à primeira – o chão da discoteca.

Não vou dizer que foi um evento traumatizante mas, no meio de toda a javardice e momento épico de vergonha marcou o fim de uma era – a era em que me armava em parvo a pedir cocktails de nome sonante e consistência duvidosa. Estava na altura de investir na era dos moves de dança diferenciadores.