A pressão das séries

Olha que já recomeçou o Walking Dead…
Não eras tu que querias ver o Mad Men do início?
Então, já acabaste o Breaking Bad?
Esta season 2 dos Leftovers promete.
O que rende é ver uma temporada completa do Comedians in cars getting coffee ao computador.
Narcos é potente, amigo…
Mr.Robot rende ver para tirar conclusões
Deixa lá o True Detective season 2, aquilo é tipo pastilha já mastigada.
O Vikings não é um Game of Thrones, mas vai entretendo.
Aquela cena do Jeffrey Tambor vestido de gaja vale a pena.
Como é possível que ainda andes a olhar para o ‘Dead Zone’
Agora há uma espécie de nova abordagem ao universo do Heroes.
Sabias que o Fear the walking dead já tem season 2 garantida?
Não sei se o Modern Family ainda me convence. E a ti?
Nem Downtown Abbey, nem vampiros? Então e o Wilfred ainda segues?

E A TUA VIDA, VAI TENDO RATINGS FIXES? JÁ GARANTIRAM A PRÓXIMA TEMPORADA?

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A febre do cálcio

Isto não se trata uma apologia ao futebol italiano, mas sim de uma interrogação – desde quando é que os problemas com o cálcio e a osteoporose voltaram a estar na moda? Os complexos vitamínicos e as cenas para o colesterol que se cuidem, o ataque do cálcio aos velhinhos está de volta e as televisões portuguesas estão cá para ajudar.

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Calhei a ver um bocadinho de televisão nas últimas manhãs e os meus ossos tremeram com tanta mensagem de alerta para o cálcio que me pode faltar na velhice – ele era a Vanessa Oliveira (na versão em que envelheceu 10 anos em 2 anos) e uma amiga sorrindo a favor de umas cápsulas, ele era o Júlio Isidro também a rezar pela saúde das ossadas dos idosos e ele eram mais uma ou duas tipas jovens e disponíveis segurando de forma muito natural e nada forçada uma bela caixa de cápsulas enquanto nos contam como é aquilo nos vai aliviar a carteira e as costas.

Sendo honesto, não me surpreende nada ver publicidade crápula a tentar encher a cabeça dos velhinhos que muitas vezes têm na televisão a última ‘pessoa’ que se preocupa com eles e lhes dá conselhos (ou que faz muito bem esse papel).

Mas por favor, poupem-nos a entrar em campanhas de testemunhos em que cospem textos que mal percebem a dizer que sim, que eles usam e que se ontem as dores nos ossos nem os deixavam endireitar as costas, duas caixas de comprimidos mais tarde já estão a dar mortais empranchados. É que depois a coisa passa da tristeza à caricatura, como o caso deste amigo:

Ponham a gaja da permanente loira e do tarot a vender comprimidos, usem as pseudo-boazonas de sorriso fácil a dizer que aquilo é fantástico e reciclem as ‘estrelas’ do firmamento televisivo que precisam de uns cobres para sobreviver a uma reforma difícil. Mas deixem os velhinhos fora das figuras tristes dos testemunhos – se os vão enganar, ao menos que nãos os usem contra eles próprios.

O drama e o horror por detrás do jogo da ‘Linda Falua’

Sempre olhei com alguma desconfiança para o cancioneiro infantil de Portugal. A verdade é que por detrás de rimas fáceis e musicalidade simples, muitas vezes os adultos não prestam muita atenção ao conteúdo e, quando damos por isso, os miúdos andam a cantar coisas deveras suspeitas.

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Vejamos o caso da cantiga/jogo infantil da “Linda Falua”, começando pela letra da música:

 
Que linda falua
Que lá vem, lá vem!
É uma falua
Que vem de Belém.

Vou pedir ao senhor barqueiro
Quem me deixe passar
Tenho filhos pequeninos
Que não posso sustentar.

Passará, passará
Mas algum ficará
Se não for a mãe da frente
É o filho lá de trás.

 

Analisando friamente a letra e a mecânica do jogo, eis o que temos:

– Há uma família inteira, provavelmente suburbana, que se desloca de Belém. Viajando de transportes públicos, é certo que não são do Restelo e o facto de recorrerem a uma falua e não a um cacilheiro, indica um certo índice de mitrice, para não pagar o passe. 

– A mãe passa obviamente por um período difícil, um divórcio ou alguma tragédia familiar e tem um vasto lote de filhos de tenra idade que não consegue sustentar.

– Recorre ao choradinho para tentar a clemência de um barqueiro, possivelmente uma autoridade portuária ou um departamento marítimo da Segurança Social.

– O barqueiro, intransigente, dá a dica que há que ‘pagar’ de alguma forma, à conta da mãe ou das crianças. Vou abster-me de fazer comentários sobre o possível teor sexual das suas intenções.

– Se bem se lembram, o jogo implicava ainda que o elemento da família que ficasse retido pelos barqueiros tinha de fazer uma escolha (ex: morango ou banana? Gelado ou chocolate? Segurança Social ou Finanças?) sabendo que isso poderia condicionar o futuro mais próximo. É revoltante ver que, em vez de promover a integração, esta trupe de barqueiros ainda fomenta a discórdia e a desinformação.

– Depois de separar a família, fazendo-os passar por controlos sucessivos, os pérfidos barqueiros faziam-nos lutar uns contra os outros, numa espécie de ‘jogo da corda’ final, em que um dos lados da família enfrentava o outro, cada qual a mando de um dos barqueiros. Este jogo macabro rotulava uns de vencedores, outros de vencidos, quando na realidade ninguém ganha nos escombros de uma desafortunada família separada e destruída pela miséria e pelo sistema.

 

E, lá ao fundo, vem a caminho uma nova falua, com os barqueiros a esfregar as mãos de contentes. Linda falua? Diversão infantil? Só para quem tiver uma visão distorcida da infância.