O drama e o horror por detrás do jogo da ‘Linda Falua’

Sempre olhei com alguma desconfiança para o cancioneiro infantil de Portugal. A verdade é que por detrás de rimas fáceis e musicalidade simples, muitas vezes os adultos não prestam muita atenção ao conteúdo e, quando damos por isso, os miúdos andam a cantar coisas deveras suspeitas.

hqdefault

Vejamos o caso da cantiga/jogo infantil da “Linda Falua”, começando pela letra da música:

 
Que linda falua
Que lá vem, lá vem!
É uma falua
Que vem de Belém.

Vou pedir ao senhor barqueiro
Quem me deixe passar
Tenho filhos pequeninos
Que não posso sustentar.

Passará, passará
Mas algum ficará
Se não for a mãe da frente
É o filho lá de trás.

 

Analisando friamente a letra e a mecânica do jogo, eis o que temos:

– Há uma família inteira, provavelmente suburbana, que se desloca de Belém. Viajando de transportes públicos, é certo que não são do Restelo e o facto de recorrerem a uma falua e não a um cacilheiro, indica um certo índice de mitrice, para não pagar o passe. 

– A mãe passa obviamente por um período difícil, um divórcio ou alguma tragédia familiar e tem um vasto lote de filhos de tenra idade que não consegue sustentar.

– Recorre ao choradinho para tentar a clemência de um barqueiro, possivelmente uma autoridade portuária ou um departamento marítimo da Segurança Social.

– O barqueiro, intransigente, dá a dica que há que ‘pagar’ de alguma forma, à conta da mãe ou das crianças. Vou abster-me de fazer comentários sobre o possível teor sexual das suas intenções.

– Se bem se lembram, o jogo implicava ainda que o elemento da família que ficasse retido pelos barqueiros tinha de fazer uma escolha (ex: morango ou banana? Gelado ou chocolate? Segurança Social ou Finanças?) sabendo que isso poderia condicionar o futuro mais próximo. É revoltante ver que, em vez de promover a integração, esta trupe de barqueiros ainda fomenta a discórdia e a desinformação.

– Depois de separar a família, fazendo-os passar por controlos sucessivos, os pérfidos barqueiros faziam-nos lutar uns contra os outros, numa espécie de ‘jogo da corda’ final, em que um dos lados da família enfrentava o outro, cada qual a mando de um dos barqueiros. Este jogo macabro rotulava uns de vencedores, outros de vencidos, quando na realidade ninguém ganha nos escombros de uma desafortunada família separada e destruída pela miséria e pelo sistema.

 

E, lá ao fundo, vem a caminho uma nova falua, com os barqueiros a esfregar as mãos de contentes. Linda falua? Diversão infantil? Só para quem tiver uma visão distorcida da infância.

Anúncios